desperdício da virtude


Perfil
Blig Amigos

Arquivos




17/01/2006 14:47
Acerca da greve

Instrumento de mensuração do Sistema Capitalista. Um grevista, nos

moldes atuais, jamais será um transformador radical da estrutura

capitalista. Quem pensa de forma diferente, ilude-se. Um grevista,

embora possa ter, em seu íntimo, dissenssões com o seu patrão; não

tem, por outro lado, dissenssões com o Sistema Capitalista, onde

está inserido. O grevista, quando em estado de greve, está, na

verdade, num estado de propugnação de realinhamento de preço de

sua mercadoria, que é a sua força de trabalho. Por isso, portanto,

que vemos o capitalismo em sua maior essência (ousía), quando

vemos um grevista em luta. A greve é, portanto, o Fayol e o Taylor

de uma pós-modernidade obsoleta e decadente e se torna a cada dia

uma insuficiente comensuradora de meros serviços.


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:40
Pólis dos Mortos / Sobre as Ágapes

Seria muito fácil para mim propugnar a salvação do mundo. Poderia

facilmente elaborar colóquios da felicidade; uma possível

eudaimonía do mundo. Propor caminhos e diretrizes para as cidades.

Criar relações quase que incestuosas com a sociedade. Falar-lhe o

que desejasse ouvir. Dissertar fórmulas de bons procedimentos.

Poderia também em certos momentos despejar o meu mel e desferir

todo o meu fel ou aduzir um vocabulário eivado de frases bem

feitas e não menos absurdas. Compilar uma gama de idéias

mimetizadas. Ter estada e estadia nos melhores hotéis. Ser chamado

de mestre, doutor... Tomar suculentos cafés da manhã tudo a soldo

do estado falido e de seus infiéis detratores. Poderia ainda citar

frases de efeito e ouvir, depois, com parcimônia, as cantilenas de

meus inúmeros puxa-sacos... Mas não! Não o faço! Se a história se

repete, então afundaremos no mais fundo dos sempiternos fracassos.

Os meus escritos não sibilam no ramerrão dos que se sentam num

sonho impossível. Só escrevo, quando escrevo, para os de olhos e

ouvidos bem atilados. Aos que desejam a salvação do mundo...Não!

Não me procurem! Meu uivo lhes será inócuo como um placebo

vencido. Só escrevo com as minhas armas em punho. Quanto ao

resto...Ai de mim...Me perdoem... Há muito que venho perquerindo o

sonho tranquilo dos deuses...Meus ollhos têm habitado ultimamente

os mais profundos dos nesfastos pesadelos...


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:37
01/09/2005

HOMO PLURALIS


‘Logo,logo, estaremos ouvindo um jazz de Derrida ou um bolero de Ricoeur.

Há muita discussão acerca da técnica – sobre os seus benefícios e

malefícios. A filosofia contemporânea é testemunha disso. Se

escrever é uma técnica, antes de ser um registro, ou - como querem

alguns, uma expansão da memória, o certo é que o Homo pluralis

(coetâneo dessas tão variadas formas de técnicas) caracterizou-se

pelo pleno domínio das mesmas, querendo se apoderar ou esvaziar

também outras formas de possibilidade. O Homo pluralis, de forma

sumária, é o epítome desse domínio da técnica, a técnica como

destruição exemplar (de apoderamento.) É impossível para o Homo

pluralis o não domínio de quaisquer técnicas que sejam. E sob o

Homo pluralis, subjaz uma outra categoria, que seria denominada de

Homo pluralis artium. O Homo pluralis artium aponta os seus cinco

sentidos, e, por que não dizer, o seu sexto sentido - porque está

sempre à espreita – para a música, para a poesia, para a pintura e

para toda forma de literatura. Onde possa emergir um pensamento, o

Homo pluralis artium tenta lançar a sua canga. Não que isso fosse

pernicioso em sua tentativa. É de pleno direito do Homo pluralis

exercer o seu livre arbítrio. Mas o Homo pluralis, às vezes,

ultrapassa os limites de sua capacidade. Porque quanto mais toca,

mais pinta; porque quanto mais pinta, mais escreve; porque quanto

mais escreve, mais se perde em seu livre arbítrio, tangenciando

por vezes um livre arbítrio mais meticuloso. O Homo pluralis

parece-se, por vezes, com um rei tântalo afoito, que se livrou das

duras algemas dos tártaros, impostas por júpiter, o pai e o

soberano dos deuses. Esse rei tântalo liberto e libertino,

perdido, agora precisa devorar tudo que se lhe apresenta e o que

não se lhe apresenta também. Não lhe apraz o acoitamento reflexivo

de um Epimênides cretense. Não, ele quer mostrar as suas artes, os

seus manejos: ars artibus tão somente. O Homo pluralis artium

assemelha-se mais a um autonarciso, que confunde e se confunde num

lago poluído de escrituras e de suportes mal-acondicionados. O

Homo pluralis contamina o jardim de adônis de Platão, plantando

sementes em demasia. O Homo pluralis distorce o enunciado de amor

fati de Nietzsche, ou não compreende deveras. Mas se é na

minudência que encontraremos o nosso centro, forçoso será, pois,

engendrar um Homo minimus? Será que na minudência que

encontraremos o nosso centro, o nosso ponto arquimédico? Será

mister, de vez, restabelecer esse velho embate: Homo pluralis

versus Homo minimus? Antes de ser um neo-renascentista o Homo

pluralis faz morrer toda tentativa de renascimento. Mais uma vez:

o Homo pluralis antes confunde do que ilumina. Vivemos na verdade

numa era trevas.


São Paulo, 01/06/2005.

Revisão – Não definitiva.(2)




enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:32

PARTICIPAÇÕES

REVISTA COYOTE


Acaba de ser lançado o oitavo número da Revista Coyote, uma publicação sobre literatura e arte que tem como principal característica a ousadia e inventividade. Editada pelos escritores londrinenses Marcos Losnak, Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes, a Coyote ainda conta com o criativo projeto gráfico de Joca Renners Terron e Marcos Losnak.

Nesta edição, COYOTE apresenta ao público brasileiro a obra de Cecília Vicuña, poeta e artista plástica chilena radicada em Nova York - em dossiê com entrevista, fotos e poemas traduzidos -, e poemas inéditos em português do egípcio Edmond Jabès (em tradução de Caio Meira) e do coreano Yi Sang (traduzidos por Yun Jung In).

O número traz também uma mini-antologia com o poeta londrinense Carlos Eduardo Zago, a poesia do carioca Rodrigo Leão e do paulistano Marcelo Tápia, a prosa inconformista de Furio Lonza, Márcia Denser e Wilson Luques Costa e a escrita desconcertante de Sérgio Medeiros, na fronteira da prosa, da poesia e do teatro.

Há ainda as investigações teóricas, extremamente provocantes, do mexicano Heriberto Yépez, traduzidas do blog que mantém na internet, as belíssimas imagens do fotógrafo londrinense Walter Ney, e trabalho visual de Sergio Monteiro. Não perca!




enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:29

09/09/2005

Sobre a nova classe social


Mestres e Doutores: a mais nova classe proletária do Brasil; abastece com o seu exército de desempregados a indústria do ensino do Brasil.



Deverá surgir, em breve, o mais novo sindicalista do Brasil. Será um antípoda de LULA.



O sistema capitalista deu o maior nó jamais dado em toda a sua história: escravizou o intelectual, tornando-o um refém da indústria cultural. Com isso, matou vários coelhos numa só talagada. Depois dizem que é no sistema capitalista que encontramos burros....! Ó Deus...livrai-nos dos ignorantes....!


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:24

O meu primeiro livro

Amanhã, dia 22 de setembro, fará quatro anos do lançamento do meu primeiro livro de Contos: Contos de Arrabalde, na Livraria Cortez. Hoje em dia, pululam cafés filosóficos, saraus e oficinas literárias. Mas se procurarem, vão ver fotos dessa figura que vos fala em alguns lugares. Não é por nada, mas fiz a primeira oficina literária na Livraria Cortez. Sei que lá já estiveram Marcelino Freire, Gereba e outros. Tive o prazer de conhecer o Gereba, num sábado ensolarado, quando muitos estavam confortavelmente em suas belas casas de campo ou nas suas nababescas e longínquas praias -, mas, com muito prazer e de graça, coordenava uma dessas oficinas, onde também cantávamos algumas músicas de Canudos etc. Na livraria Cortez, conheci também o grande poeta Haroldo de Campos. Foi muito simpático comigo. Fez uma correção em seu livro Crisantempo, dizendo-me que há sempre falhas nas revisões. Eu, timidamente, dei-lhe o meu Os Granizos dos Deuses. Disse-me que eu tinha tido um belo gosto estético pela capa, e pediu-me para dedicar-lhe; e foi o que fiz: 'Depois de Haroldo de Campos, somente o dilúvio" - olhou-me e sorriu um pouco já alquebrado - mas gênio e humilde. Espero que não, mas nós, 'homens de bem, estamos criando muitos Katrinas simbólicos para o nosso parco suporte de gaia... Depois não digam que não avisei... Nesse opúsculo, elaborado com a devida preguiça, anuncio coisas escatológicas, evidentemente simbolizadas...não sou nenhuma Cassandra, e nem quero ser taxado como louco, mas para quem duvida é só conferir... ou aguardar para dar uma de São Tomé...evidentemente, se se segurar do último granizo... E tenho dito...

enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:20
01/10/2005

OS LIVROS DA MINHA ILHA


Como ninguém até hoje me ligou para responder sobre os dez, cem maiores do século; eu por mim mesmo resolvi, enquanto estava deitado fazendo a minha sesta, elaborar um certo cânone dos livros que mais me influenciaram e se mesmo influenciaram e se influenciam até hoje. Bem, para começar, acho que cada livro tem o seu tempo. E isso se deve ao nosso momento e à nossa curiosidade. Por isso, acho que é sorte do leitor ser almejado antes pela obra de arte do que pela própria vida; porque num determinado momento ambas acabam se confundindo, e isso é ruim tanto para o leitor, quanto para o escritor, que deixa de ser num certo sentido, o arauto de uma vida anunciada. Pra começar, comecei a ler muito tarde. Digo ler de fato coisas de algum significado. Não tenho uma linha de homens de cultura na família, embora meu pai seja para mim o maior decano, porque já habitava a nossa casa com livros como: gramática expositiva, como aprender espanhol, biografias de Cairu etc - mas eu nem dava bola, porque o meu negócio era jogar bola. Mas de repente, vi-me envolvido com livros. Comecei, para resumir, com os primeiros passos da Brasiliense, que guardo até hoje na minha humilde biblioteca. Encantava-me com palavras para mim até então desconhecidas: recalcitrante, idiossincrasia etc. Vocabulário que me deu algumas conquistas na ordem amorosa. Posto que as meninas gostavam desse charme. Sobretudo quando se amalgamava com Caetano, Gil e Chico. Uma coisa eu percebia: eu não gostava nem gosto muito de romance. Tentei vários, muitos em vão. Não conseguia ser levado pelas longas, longuíssimas estórias. É uma característica minha. Não tenho muita paciência. O cara vai contando e eu já vou sabendo antes, e ele pensando que vai me surpreender. É aquela velha estória do aluno, que vive pulando a página para acabar. E isso se deu com muitos, comigo. E não adianta falar que não estamos preparados para a obra. Porque se não estiver numa determinada época, quando então? Contos, eu já gostava. Porque a estória acabava ali mesmo; e eu emendava logo outro em seguida. Mas de todos esses, poucos me marcaram como um clássico. E essa coisa de clássico também é estranha. Porque na verdade, passam mais pela tradição oral, até hoje, embora quase todos tenham estado com os livros, do que pela própria leitura. Por exemplo: quem com a devida isenção pode afirmar que leu Joyce de cabo a rabo, notadamente Ulisses? E é clássico. Dos contos do Joyce, li e gostei muito. Lembro de um que falava de um morto que me marcou muito. Já o Beckett, o que me fascinava era o nada nas próprias palavras. Adorava aquilo. E aquilo me fazia sentir capaz também de escrever. De Sartre, o que li muito, foi a sua biografia. Entre Quatro Paredes é muito fraco. Prefiro Sartre nas ruas. Como se diz: há obras que são inferiores ao autor. Para mim é o caso de Sartre. Como de Camus, mas Camus ainda sou capaz de reler. De Goethe, vejam, só leio em português, apesar de levar um pouco o espanhol, o francês melhor que o italiano, e o inglês melhor que o alemão, grego e latim, que são um pouco mais que instrumentais para mim. Mas o meu prazer é com a língua-mãe. E mãe eu não traio. De Goethe, muito pouco. Talvez mereça um retorno. Mas aqueles de dez e de doze, tudo metrificado, é dose pra mamute. Ninguém agüenta um soneto, imagina então aquelas levadas de mais de não sei quantas páginas. De Shakespeare, O Mercador de Veneza, Hamlet etc. Pelo que soube, houve-se por bem em fazer uma reengenharia de seus contemporâneos. Mas só algumas passagens. Tem muita fala evasiva. Que não dá. Se o leitor não estiver afoito, é só aguardar que não tardará em encontrar um Iago pelo seu caminho. É chato por quê? Porque vai abrir a porta, e tudo em decassílabo. Não agüento. Mas quando filtra, frases de efeito excelentes. Dostoiévski, aquele encanto do mundo russo. Mas de uma prolixidade sem limites. Recordo-me que tentei ler Os Irmãos Karamázov por várias vezes. Mas por qualquer imponência externa tive que abandonar, e aí comecei tudo de novo. Mas li algumas coisas. E gosto. Tólstoi, a mesma coisa. Dos outros: contos. O Inspetor Geral, O Capote... De Anatole France, um conto, que me faz recordar do amolador de facas e do homem que vendia carvão na Vila Ré. E dizem que Valéry não o cumprimentou na academia. De Valéry, nada. Pastiche geral. Alguns ensaios. De Pound, aquela mixórdia louca, que acabamos entendendo e não entendendo.Vi que não conhecia muito o grego. De Kafka, o encanto de descobri-lo quando tinha 22 ou 23 anos e por sinal trabalhava numa companhia de seguros. Sentia-me o próprio Gregor Samsa. Outros contos, não me encantavam, mas me sentia inibido em dizê-lo. O Processo, sei da história pelos outros, e não me arrisco. E vejo muito acontecer no Datena. TS. Eliot: Waste Land; um atrevimento de prosa e poesia. Gosto e não gosto. Céline, mais a figura. Os livros são chatos. Não quero me estender, porque foram poucos que segui até o fim. Não pela minha incapacidade, mas porque são maçantes e chatos, mas têm fama etc. Quem quiser ler por mim, que vá em frente. Poderia ainda falar em Pessoa, um espanto quando tinha 21, 22 anos mas nada. Camões, um ou outro soneto. Lusíadas, pago para lerem pra mim.Saramago não me atrevi ainda. No Brasil, gostei depois de algum tempo de Machado. Mas prefiro a sua biografia. E os outros, nada de genial. Nem Machado é genial. Drummond, Bandeira, Dante Milano, respeito... Dos contemporâneos praticamente ninguém. São bons, cultos, mas para a próxima geração. Mais professores universitários e jornalistas naquilo que chamavam de Homo Ludens. Pra resumir: creio que os grandes literatos estão erroneamente classificados na filosofia, e não são filósofos na essência. A saber: Sócrates, Platão, Marco Aurélio, Sêneca, Erasmo de Roterdã, Montaigne, Schopenhauer, Gracián, Nietzsche, Cioran... Ah, esqueci de Borges... Proust, Augusto dos Anjos, Baudelaire, José Albano, Noïca... Chega...chega...se não essa minha caravela vai explodir...Xiii...Noé...mas caravela não afunda...? Afunda...! Acho que eu estou mesmo é de mal com a vida...me perdoem...!



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:15

07/10/2005

Sobre os livros da minha Ilha / o nó górdio de Shakespeare


Sobre o texto que escrevi, vejo que fiquei tomado de comoção

e de um certo arrependimento. Explico: é como se eu fosse tomado

de uma irascividade sem limites, e, assim, como um serial killer, saísse

matando tudo que estivesse na minha frente. Como Sócrates, eu devo

ter um bom daímon. Gostaria de estar grafando em grego, mas não consigo

grafar, então vai em português mesmo. E não fará diferença. Esse daímon

só me visita lá pelas 10 ou 11 da noite, quando já estou com as pestanas

quase engolindo o meu olho. Posto que às cinco e trinta já estou de pé

para encarar algumas aulas como professor eventual. Mas falando do meu daímon,

ele pegou firme no meu pé: 'por que deixar Shakespeare, Goethe, Valéry etc

fora de seu cânone? Quem é você? O que você pensa que é? Eu naturalmente

não soube responder. Como não sei responder muitas coisas ainda. Mas tenho que

ser sincero. Shakespeare já não é must para mim, mas julgo mesmo que seja um

clássico. E por quê? Porque sempre retornamos... Só o prazer de ter Shakespeare

de cabeceira... Parece-me que há livros que não foram feitos para serem lidos.

É o caso da Divina Comédia e de Cervantes. Já caíram naquilo que se denomina

de oralidade secundária. Então o que há de errado em Shakespeare?

Para mim, o tipo de leitura teatral que tem muita ponte e as trocas

de personagens. Primeiro fala um, depois o outro...aí muda...tudo para

o Plot...e isso me cansa...daqui a pouco uma fala espetacular...

mas para mim é muito pouco...Gosto de ser tomado pelos

devaneios do escritor, e, nesse ponto, para mim, Shakespeare

falha, ou melhor, o seu tradutor, que não sei quem é, falha...

Já que não aventuro no inglês Elizabethano...

Mas se tentar, e com um pouco de esforço, vou fundo...

Isso se dá também com Goethe...e outros... Aos poucos vou explicando

o que penso, sem nenhum medo ou ressentimento... O que é legal em

Shakespeare, então? O legal é que o cara é egoísta: não deixou pra ninguém...

A alma humana toda em detalhes... Um cara que ler as obras completas de Shakespeare,

pode esquecer de viver...porque está indo de um mundo platônico, para um

mundo aristotélico... Vai encontrar logo na primeira esquina uma virago

lady Macbeth. De Iagos já falei...Brutus... Nisso... Shakespeare, na minha

humilde opinião, é genial. Parece que o bicho estava

revoltado contra Adão, e perfilou toda a miséria humana na sua obra.

Mas para encerrar, se fosse no estilo de Proust, seria mais magnífico

ainda, ou imaginem, se Shakespeare deixasse um pouco para o

nosso Machado... Mas ele já sentia que tinha gente bamba

na fila... Dias desses vou falar sobre outros que fui em frente

ou tropecei... Já dá para perceber que provavelmente vou

precisar de um dia internacional do perdão... Aliás até o nosso

rei Pelé já perdeu um pênalti... ou não perdeu...e se não me

engano foi contra o meu estupendo coringon...

Pelo menos isso... né amigo leitor:

ao invés de pérolas para os porcos... pérolas para os gaviões..

et légomai...

bye...



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:10

10/10/2005

O LEOPARDO


Não sei se só acontece comigo: sinto um ar em tudo de dejà vu. Já não tenho

esperança, embora finja para as pessoas. Quem me vê pessoalmente, não vê

esse cara amargo que sai no blog. Sou um cara que gosta de um bom papo.

De trocar idéias etc. Mas no fundo da minha alma mora um tom

de amargura. Aquilo que podemos chamar de leve depressão.

Mas vou tocando o meu barco, mas sinto que a legis da minha

regionis já não me pertence. Non legislant for me. E isso é ruim.

Às vezes me parece que vivo por inércia. É triste falar isso, mas é o que sinto.

Não caibo. Essa que é a verdade. Cumpro com o meu dever. Isso é ruim porque me

paralisa totalmente. Já não sinto aquele tesão das varadas de madrugadas lendo.

Vocês podem perceber nos textos abaixo. Não acho ninguém genial. Mas não

é porque não quero, de pirraça, ou qualquer coisa. Mas porque não vejo aquela

explosão do motor. Eu já cheguei a escrever um pequeno conto que era a morte

de um morto. Daquele que já morreu, mas nem ele nem os seus familiares tinham

percebido. Mas tudo isso, para falar de um livro que eu vinha protelando e que agora

encarei nesse domingo. Evidentemente que estou no começo, mas já notei

algumas coisas. Trata-se de Lampedusa: O Leopardo. No começo me deu

um pouco de sono. Mas ontem segui bem. É um bom livro,

o cara escrevia bem. Palavras interessantes etc... Tudo para justificar

o que penso de tudo, mas que não me justifica se vem por mim mesmo.

Precisamos, alguém já disse, de nos encontrarmos nos outros. Ver o

nosso pensamento pelas belas palavras de um escritor.

Por exemplo: ' - Que tristes tempos, Excelência...grandes desgraças

vão acontecer, mas depois de certa confusão e de alguns tiros tudo irá melhor:

vai haver uma nova época de glória para a nossa Sicília; se não fosse o

fato de tantos rapazes terem de perder a pele, só haveria razão

para estarmos contentes...' Logo em seguida, à frente, vem:

'A escrita está em dia, Excelência - era a frase mágica...

Em seguida afastou-se para ir remexer nos

enormes livros da escrita. Esses livros, numa caligrafia minuciosa

e com dois anos de atraso, registravam todas as contas da casa Salina,

exceto as que eram veradeiramente importantes.'

Mas a frase chave do livro é: 'Se queremos que tudo fique como está, é preciso

que tudo mude. Fui Claro?' - E eu, leitor, fui também claro? Agora deves

compreender dessa minha leve depressão e desse meu triste ar de dejà vu...

um abraço...

Obs: Lampedusa viu os seus textos rejeitados por editoras da época.

Autor praticamente de um livro.

Lula provavelmente não leu 'esse' livro.

Lampedusa morreu sem saber que seus vaticínios caberiam, no início do

século xxi, numa terra chamada Brasilis. Sed non brasilium.

Socorro, meus bonus pound!



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:07
12/10/2005

Sobre a iconografia


Para o que chamamos de literatura, penso que não

seja somente o que se passa unicamente pelas palavras.

Houve na certa uma transgressão semântica. Para mim,

uma foto de Camus - com aquele cigarro dependurado

no lado direito da sua boca - vale muito mais que mil

páginas de certos escritores nacionais ou estrangeiros.

Confesso que fui ler O Estrangeiro - isso quando tinha

22 ou 23 anos - mais por conta daquela iconoclastia

de sua iconografia, do que por qualquer outra coisa.

Há autores que valem mesmo muito mais pela sua

silhueta, pelo seu charme e pela sua rebeldia.

Em uma só foto vemos desancar, não raro, todo

um sistema de vida. Há outros exemplos: for instance

algumas fotos de Sartre com aquele seu

modo despretensioso de se relacionar com Simone.

Aquilo tudo me fascinava. Lembro-me das devidas

solicitações ao meu avô espanhol - verdadeiro anarquista

enrustido de Córdoba - do seu sobretudo devidamente

alocado em um de seus melhores cabides. Literatura,

para mim, é, às vezes, mais atitude do que palavras.

Se me perguntassem hoje sobre A Náusea, na certa não

saberia responder. Bem como não saberia responder se me

perguntassem sobre O Estrangeiro ou sobre A Queda (idem/ibidem).

O que fica de Camus oún? Fica uma Argélia imaginativa em

minha cabeça. Fica um goleiro que virou filósofo e que se opôs

a um certo modus vivendi. Fica um homem que, no absurdo

de um bilhete em seu bolso, aos 47 anos, morre intempestivamente

entre as ferragens de seu automóvel. Fica a esperança de uma nova

guinada de vida. Muitas vezes importa mesmo mais a iconografia do

que a obra. Camus na certa tem um lugar especial em meu coração.

Lembra-me Camus liberdade. Quando me perguntam sobre o que é

liberdade, tento iluminar-me sempre com o cigarro aceso de Camus

sobre a minha cabeça. Com efeito, que acendamos um pequeno

fósforo nessa escuridão... E Camus pode ser essa chama...

Bye, caro leitor, und légomai...



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:04



Para quem leu um pouco de Sêneca e a história do mundo,

impossível acreditar naqueles que estão bem estabelecidos

quererem a mudança do mundo. Vou ser sincero. De alguns

intelectuais com quem convivi, poucos me convenceram de

uma atitude sincera e abnegada. Tudo é fruto para as suas

pesquisas e debates... A pobreza, a miséria, como simples

objetos de estudos. Certa vez, estive com um grande poeta -

mas que infelizmente não está mais conosco- e vi esse poeta

despachar - sem meias palavras - um menino que pedia um simples

pão de queijo num Mc Donald do centro da cidade. Sem falar de

um poeta que (pensando que não havia ninguém ali onde ele

estava da periferia) vi elaborar os maiores impropérios sobre

Itaquera e adjacências - quando de um desses colóquios numa

dessas livrarias 5 estrelas, onde se determina o tipo de poesia

que se vai praticar no próximo semestre para poder fugir um

pouco da abjeta vulgaridade. E o pior é que a poesia desse

poeta se alimenta - e muito- do pão e do leite desses pobres

de Itaquera e adjacências... Dá para acreditar num filósofo

que fala da ontologia da pobreza ou da metafísica

da miséria e que mora confortavelmente numa cobertura

de não sei quantos metros quadrados e que sente coriza ou urticária

só em pensar nesse objeto de sua defesa? Dá para acreditar em

pessoas que pensam que na Zona Leste se desconhece Stendhal,

Gérard de Nerval ou Guy de Maupassant?

ó no! hier? there ist non only rap...


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 14:01
Nietzsche - 161 anos


Num mundo de especialistas, já digo de cara que não sou especialista

em Nietzsche. Nem de mim mesmo, dirá dos outros. Mas gostaria de fazer

uma pequena alusão à figura do pai do Zaratustra. É incrivel que nesse

dia 15 de outubro, logo pela manhã, quando acordo, já me recordo desta

data. Nietzsche era libra. Mas nos seus escritos nada era equilibrado.

Ele ia fundo do abismo ao éter e do éter ao abismo. Muitas interpretações

já foram feitas à figura de Nietzsche. Nietzsche seria, hoje, um tipo de

popstar acadêmico. E por que isso? Porque a sua biografia é muito interessante.

Aos 44 anos já delirava. Aliás já delirava muito antes. Nietzsche na minha

opinião era um pusilânime, por isso criou o übermensch. Para se defender e

atacar. Muito se fala, quando se coloca Nietzsche como baldrame filosófico,

sobre o ataque de Nietzsche ao ressentimento. Mas convenhamos: Nietzsche

era um ressentido. E não raro se vingava. E quem diz que se vingar é uma

fraqueza? É só ler Nietzsche com atenção. E ler a história das religiões e do mundo,

que não são as minhas especialidades auch. O problema não era nem isso.

Nietzsche não suportaria ninguém à sua frente. Um caso mais de narcisismo,

do que de vingança. Brigou com Salomé, atacou Wagner, o Cristianismo,

a Alemanha, Sócrates, todos que no fundo ele admirava. Ele já diz isso

em um de seus escritos: 'eu só ataco aquilo que venero'. Certa vez,

numa aula de filosofia, aludi ao suposto ressentimento de Nietzsche,

e um professor arguto de chofre argumentou: 'pelo que eu saiba,

Nietzsche dizia nunca ser um ressentido. E eu contra-argumentei

que Nietzsche seria, talvez, um cristão fervoroso, mas desiludido

com o cristianismo de sua época, que vinha declinando em seus

valores. Um problema axiológico e não de pisté. Por que

Nietzsche escreveu o anticristo? Lembrem-se que a palavra

anti em grego é no lugar de. Dizem as más línguas que

Nietzsche dizia ser o Jesus Cristo... Ato falho? Muita coisa

se escreve e se escreveu para dizer dos 'super-homens'.

Como se os 'super-homens' tivessem o seu próprio cogito

e dali fundamentassem tudo. Isso é só para quem aceita

tudo de todos. Depois que você fundamenta sofisticamente,

tudo cabe. Para variar, de todos os autores de que gosto,

desgosto (de quase todos) numa proporção inversa de seus

supostos epígonos. Como dizia Nietzsche no Zaratustra:

'Fuja, meu amigo, para a sua solidão, para além onde sopre

vento rijo e forte. Não é destino seu ser 'enxota-moscas'.

E é o que faço nesse nublado 15 de de outubro... Et légomai...



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 13:57
Sobre a minha escrita


Não sei. As coisas antes nunca foram assim. O meu deleite,

o meu prazer, era ler por horas a fio. E com isso eu me saciava.

Era chegar no dentista e ver aquela fila quilométrica, que eu

já logo me ajeitava de vez, torcendo para que o motorzinho

enguiçasse na boca do infeliz, só para eu dar umas orelhadas

a mais no livro que me viajava. Em suma: antes eu me comprazia

com as minhas simples leituras. Mas depois que me disseram

que eu poderia ser um escritor, ou qualquer coisa que o valha

(aliás que deus dê vida longa a esse cartomante imbecil que me

mentiu e me desviou). Por que fui acreditar num débil mental

daquele? É essa pergunta que todo o dia eu me faço...

Mas o pior não é isso... Adquiri desde então uma compulsão

mórbida para a escrita... E agora não é mais o cartomante

imbecil que me ilude...Sou eu mesmo que tento me iludir

que escrevo razoavelmente bem...Que Machado e Anatole

revirem-se nos seus devidos túmulos... Penso mesmo que

devo ter alguma doença... Um tipo de patografia sistêmica...

E acho... (que é o pior)... que não tem cura... Sou, com efeito,

um doente patológico... E não tenho nenhuma noção

dessa minha precariedade escritural... Iludo-me a mim mesmo...

Crio leitores sábios e inteligentes, como se concordassem de vez

com tudo o que eu digo... Não sei, parece que quando escrevo

liberto-me de uma vingança exasperada...Preciso escrever qualquer

coisa... Quando deixo de escrever, já sinto o primeiro sinal de minha

abstinência... A escrita para mim, uma compulsão sexual...

Sou um workaholic profissional... Tento com a escrita assassinar,

cabalisticamente, todos os meus fantasmas... Assassino antes

a escrita para poder, finalmente, também me salvar....



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 13:55
Sobre a traição


Existe uma linha tênue entre o ódio, o amor e a traição.

Eu gostaria muito de poder confiar nos homens, mas sinto

em dizer que não consigo. Se uma coisa que o homem carrega

em seu gen é o gen da traição. Quem bem prestar atenção

e não querer pretender enganar a si próprio vai perceber que

o prazer do homem é trair. Trair sobretudo aquele que lhe quer

bem, que lhe dá guarida, apoio, esperança, afeto... Então vejamos:

quem traiu Adão? Não foi Eva? Quem traiu Julio César? Não foi Brutus?

Quem traiu a sua esposa mais confidente? Não foi o seu marido mais que fiel?

Então como diz o velho ditado: dormimos há muito com o próprio inimigo... E se eu

estivesse enganado, na certa, não haveria tantos divórcios, desquites,

separações judiciais, e inúmeros pedidos de falências e moratórias...

Ou alguém dúvida que a palavra sócio foi desvirtuada e transgredida

pela diacronia dos desentendimentos? Acreditaria alguém hoje em

um dos seus mais ferrenhos ex-partidários políticos? De fato, o homem

nasceu mesmo para romper e infringir todo tipo de contrato social...

O homem, muito ao contrário do que pensava o sábio Rousseau,

não é(neque) um bom selvagem... Há aí nessa frase, sem dúvida,

na certa, um claro excesso de adjetivação e uma evidente contradição...

kaì légomai....

sem revisão final...




enviada por wilson luques costa



17/01/2006 13:49

CIORAN


Não acredito muito em cânone. Porque a cada dia estamos

querendo devorar algo novo. E eu se estivesse perdido numa

ilha e com apenas um ou dois livros era meter uma na jugular

direita e bau. Mas se eu fosse um Robinson, deveras, não faltaria

Cioran. Como já disse muitas vezes, sou mais doce do que cem mil

colméias de melitas, é só não mexer comigo. Mas gosto de escritores

viscerais, que vão direto no baço e no fígado. E Cioran é um deles.

Ou melhor: o melhor de todos eles. Para mim, Cioran foi a mais grata

descoberta da literatura ou filosofia. Já se vem, há muito, dizendo

que a Romênia é o novo berço da humanidade. E para mim Cioran é o

seu mor pater. O homem não condescendia. Ele atacava direto no baço

mesmo. É um tipo de vírus que te pega desprevenido. E contra Cioran

não há fármacon que dê jeito. Ele tem bía. Gostei de Cioran antes de

ler algumas resenhas que insinuam ser ele um nazista. Ora bolas.

Tudo agora é nazismo e anti-semitismo. As coisas não são assim...

Para mudar um pouco de assunto....

Por que não se deve falar em nada que toca certas temáticas?

Olha aí a minha autocensura...

Só a favor?

Vejam: gosto de W. Benjamin e muito, Einstein,

nem se fala, Freud, outro gênio e a lista não caberia

em minha sacola. Mas o que eu quero dizer é que o novus

politicamente correto... Um novo tipo de censura camuflada...

Notem: Pound é criticado até hoje. O mesmo com Céline...

Todos tidos como loucos. Sendo que eram e se não eram

delimitavam a genialidade. Mas falar de Cristão e mal pode

e a toda hora. Principalmente nos jornais, na literatura,

poesia, contos, em off e muito em Universidades Cristãs.

E olha que eu não entro em uma igreja já faz mais de

três anos, a última, quando a minha querida avó faleceu

e não gostei de certos comportamentos no culto...

Aliás não me atrai a cor roxa num mix com o amarelo...

Não me atraio pelo excesso da liturgia católica...

Tenho uma ligação direta com o divino...

Mas o que eu já vi na vida...

Na PUC-SP etc falarem de cristão...

Meu, é pau para dar em louco...

E você quieto como uma mula...

Parece um processo inverso: de

um lado só se fala da virtus; do catolicismo da malitia...

Quem quiser me chamar de qualquer coisa, que chame;

porque não sou... Mas sei que só o fato de defender o

outro lado vão me cunhar ou me chamar de um analfabeto

ou um cara que não entende nada, que não sabe o que diz,

um babaca, etcetal...Ou melhor: Quem é esse cara?

Onde se formou? Qual revista internacional ele saiu?

Quantos livros? Quantos prêmios? Quantas tartarugas ele ganhou?

Quantas teses ele orientou? Sim, sou eu mesmo: um cara simples

que se...muito na vida, que fizeram de tudo para se...., e isso é

governo e o c......, porque nunca me deram p.... nenhuma,

aliás sempre negaram e que ninguém abriu nenhum caminho e

que não quer que ninguém abra também... É isso?

Papel dependurado na parede? Anéis nos dedos?

Simpósios onde dormiste com a maior vontade e conveniência

ou que fugiste de esguelha, mas que pagaste em dia a

devida taxa para que te concedessem os devidos certificados?

Ou não falar mandarim e ter a cátedra de chinês assegurada?

Ou ter um lóbulo rasgado por um furioso marido de uma orientanda

desesperada? Então o meu cv é pequeno sim... Sempre fui um

autodidata. Li um monte de m...., inclusive teus livros, mas li

também um monte de cara bom... Assim é a vida...

Mas por que não posso dizer nada?

Você aí seu b......? Dá para me encarar num debate público?

Sem os seus asseclas? Eu e você no mesmo ringue, descalços?

E olha que eu não preparo nada... Tudo comigo é de improviso...

As coisas vêm surgindo... E eu vou urdindo com a minha cabeça

em polvorosa... Mas o que eu quero dizer é que não vou aceitar

unilaterismo na minha vida... Eu vim aqui para desmontar esses

factóides imbecis, que dominam, aliás dominavam todo tipo de

mídia... Para encerrar: em uma das aulas em que

participei falou-se muito da técnica em favor da destruição...

Mas qual lado não usa a técnica e a destruição?

Expliquem-me...

Jornal não usa da técnica?

Míssil não é técnica?

Todos os lados não usam?

Quem não tem uma bomba atômica?

Me engana que eu gosto...

Como já disse...

Não é a questão de isso ou aquilo, muito pelo contrário...

Saio em defesa de alguns valores que considero justos...

Os cristãos erraram? Erraram e muito...

Não cabe em minha cabeça a inquisição e muitos

outros fatos...

Como muitas outras coisas não cabem...

Quero no mínimo sair na defesa de uma coerência

e de um respeito não maniqueístas...

Mas eu...

Eu não sei não...

Tenho esse lado da face ruborizado diante da chamada injustiça...

kaì légomai....



eu já cedi

e com algumas

belas mulheres

o meu corpo;

mas a minha alma

eu só cedo com a

virtude...


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:38
CARTA A UM JOVEM CORDELISTA


Quase todos já conhecem, ao menos os que lidam com literatura, a

famigerada Carta a um jovem poeta de Rilke. E não é à toa que esse

texto veio à baila e sobrevive até hoje, e possivelmente

sobreviverá até quando houver poetas e poesia. Sinceramente, não

sei se sou poeta, bom ou mau, não importa, mas também já tive as

minhas dúvidas metafísicas. Isso é natural e acontece. Surge a

dúvida de nossa capacidade. Será que escrevo bem? Será que sou um

bom contista? Romancista? Foi sempre assim e será. Mas o que me

causa estranheza é que já venho repassando esse texto a colegas

que percebo que têm um talento escondido. Falo atualmente, e mais

precisamente, de um colega, jovem, se muito trinta anos, que a

princípio iniciou-se com a música e agora quer enveredar para a

poesia. Apesar de paulistano, gosta das cantorias de cordéis, e o

faz com uma precisão sem limites. Tudo muito bem metrificado, em

redondilhas miaores etc... Mas paira ainda sobre a sua cabeça a

dúvida: será que sou poeta? Eu, a meu modo, julgo que sim: um

poeta da velha tradição. Dos cordelistas. Mas o que não consigo

colocar-lhe na cabeça é que falta algo... Algo de uma cultura dos

livros ou da vida, não sei...Mas falta... Mas não poderíamos negar-

lhe o fazer poético... Pediu-me para escrever algo...

Evidentemente que não lhe mostrarei esse pequeno texto... Mas

julgo que falta algo sob o sol... Às vezes vem-me aquela frase de

novo de Nietzsche:' só acredito nas pessoas que escrevem com o

próprio sangue' -(ou com o próprio veneno). E Nietzsche escreveu,

atacou, desdenhou, enfureceu... Nietzsche foi o vampiro de si

mesmo, bebeu todo o seu sangue e nem deixou um cálice, sequer, um

pouco, para o seu mestre Dioniso... Nietzsche, certamente, o

poeta, jamais necessitaria de uma simples carta de Rilke...

Além de sorver todo o seu sangue, ainda envenenou toda uma geração

que lhe seguiria... und légomai...


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:17

o lado prático do paradoxo do zero


Quando escrevo, tenho a certeza de que não serei lido,

por isso me sinto à vontade. É como se eu fizesse uma

confissão a mim mesmo. Mas eis que me engano. Uma

leitora do meu blogue (e que é blogueira também - ver ao lado)

pergunta-me laconicamente sobre o lado prático do Paradoxo

do Zero. Como se dissesse: E daí? Onde está a variação do dólar

em nossas vidas? E aí o que muda em nossas vidas? E no fundo

ela tem razão e não tem razão, se as perguntas forem aquelas.

Mas a filosofia sempre se preocupou em saber menos pelo lado

prático das coisas (e aí que a porca torce o rabo). Trata-se,

na verdade, de um discussão de âmbito metafísico, mas que irá

desaguar em nossas vidas cotidianas. Nam, a filosofia é menos um

embate público (que é uma pena), do que um embate entre filósofos,

com as suas certezas e incertezas. Quando tento apontar uma,

alías... várias contradições na chamada aritmética, coloco o pilar da

razão em xeque. Coloco o conceito de matemática universal

em xeque. Aponto sutis debilidades na chamada razão, que, de uma

forma ou outra, fundamenta o nosso modus vivendi e fundamentou.

O assunto é extenso, árduo e filosófico. Na verdade, crio um problema.

Que pode ser tanto um problema matemático, quanto metafísico.

Vejam: uma simples ressalva no Princípio da Identidade torna-se

uma mudança radical na filosofia de mais de dois milênios. Como também

ressalvar postulados tidos como certos da chamada matemática.

Mas o que quero é efetivamente discutir e resolver aquilo que chamei

de O Paradoxo do Zero. Eu, evidentemente, não sei o que seria o lado

prático de tudo isso. Posto que poderia alterar muito...

Isso esbarraria no direito, nos sistemas filosóficos,

morais, éticos e muito mais...

Por exemplo: poder-se-ia evitar uma refrega,

o'uma guerra, já que ambas surgem em face do rompimento

e do esfacelamento da razão dos homens.

O assunto é extenso e gostaria de ser contestado...

Quanto a ser chamado de gênio: nunca acreditei em genialidade.

Só cito o fato, como uma forma de ironia.

Sei lá...

Ou quem sabe para demonstrar o estupor do escritor

em ver alguém articulando algo de maneira diferente, já que vivemos

numa masmorra intelectual.

Mas nem ligo para isso.

O importante é saber que podemos ter um outro olhar de espanto

para o mundo.

E esse, na minha opinião, é o dever de qualquer cidadão, não só

dos filósofos ou poetas.

É como se lêssemos Hamlet e disséssemos: e daí?

Ou diante do cadafalso gritarmos: e daí?

Aí seria o FIM ou quem sabe a possibilidade de um certeiro

estopim na cabeça, como fez, há dias, aqui na Penha, um velho

conhecido e vizinho de um velho amigo meu...

E o pior é que lhe disseram com o seu corpo já em decúbito:

E aí, Jones...e aí...?

O terrível de tudo isso é que estamos vivendo mesmo

de uma forma totalmente prática...

Ou melhor, como diriam alguns filósofos: de um pragmatismo exacerbado...

Eu não sei se realmente isso é o melhor ou o pior...

Cada um com a sua razão...

Eu, particularmente, tenho as minhas, e com

um bom embasamento, tudo fica mais prático...

Olha aí que outra contradição...

obs: sei que não foi esse o tom da pergunta

da arguta blogueira e agradeço.






enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:15

25/10/2005

Nem sempre você é aquilo que você lê


Há um ditado que diz (como se ditado não dissesse) : você é

aquilo que você lê. Isso para mim é mais furado

que tábua de pirulito. Você pode gostar de um autor

e não concordar com as suas idéias ou o seu ideário.

Posso citar inúmeros casos comigo.

O que faz eu gostar de um autor é muito variegado.

Por exemplo: gosto do estilo de Machado,

mas considero as histórias comuns.

De Lima Barreto, gosto de sua rebeldia e do seu ataque,

mas não sigo nas leituras com afinco, por enquanto.

De Guimarães a similaridade com uns paranaenses e

mineiros que conheci aqui no bairro. Aliás conheci

os personagens de Guimarães aqui muito antes.

De Nietzsche gosto de seu fel misturado com a sua vida

bem modesta, quase monástica. De Cioran, a raiva no

discurso, mas nem sempre concordo com os

mesmos discursos. De W. Benjamin a rejeição, a sua vida,

a coisa confusa, não acabada, o estorvo, que fica uma

coisa bonita. De James Joyce a quebra de paradigma.

De Kafka, o isolamento, a seguradora, a perdição

no mundo, o enjeitamento da sociedade.

De Shaw e H. Menken a ironia sem cabrestos.

Escrevo isso para demonstrar o quebra-cabeça

que se daria (ou que se dá, porque o seguro morreu de velho)

na cabeça de um agente do SNI para elaborar um possível

fichamento sobre essa pessoa que vos fala (escreve).

Eu penso seriamente que eu o levaria à loucura.

Como posso gostar de Cioran, W. Benjamin, Adorno,

Nietzsche, Menken, Foucault, Heidegger, Barão de Itararé,

Wittgenstein etc...

Ou eu daria um nó em sua cabeça, ou ele efetivamente montaria

uma belíssima biblioteca...

Como dizia aquele velho amigo meu: 'Censura também é cultura...'

#Escrevo isso porque ou eu estou devendo

para a telefonica

ou tem grampo na minha linha...

Tá chiando mais que gato tuberculoso...

et légomai





enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:14
26/10/2005

Palinódia


Vamos ser sinceros: quem escreve quer ser reconhecido.

Mesmo que seja por um idiota ou'm imbecil qualquer...

E a briga é árdua. É como se fosse uma olimpíada.

Um querendo escrever melhor que o outro.

E no final da maratona, voltar para casa

com todos os prêmios nas costas.

É todo mundo fazendo alianças e rompendo.

Cada qual querendo ter a sua razão.

É uma briga ciclópica.

Literatura é sim falar mal de todo mundo.

É como se fosse uma briga de partidos.

E quem convive, ou já

conviveu, sabe do que falo.

É pior que mulher mal casada no

cabelereiro ou corintianos e palmeirenses

num sábado à tarde

num boteco falando das mulheres alheias.

- Porra!

Esse cara deve dar o cu pro cara lá da Folha...

E esse...

Dizem que ele é amante da mina lá do Estadão...

Porra, como um imbecil daquele pode sair naquela revista...

E o bicho vai pegando...

E eu como um flaneur só observando... e dando umas

espetadas também...

Faço mais para me divertir, porque acho que isso mesmo

não leva a nada...

É como o meu belo pai já me disse: as pombas

cagam nas estátuas... e os débeis mentais mijam...

E ele tem razão, embora a frase não seja dele...

É todo mundo querendo ser poeta, grande escritor,

romancista e o c..... a quatro...

Acho que Freud explica...

Schopenhauer já afirmava que

era impossível a um homem

ou qualquer coisa que se assemelhe a um símio

ficar por mais de dois minutos sem tamborilar na mesa...

E o escritor tem essa comichão nos dedos...

Quantos hospícios não foram construídos

em face desse complusão mórbida dos poetas...

Um médico mesmo, há muitos anos atrás,

(olha a deixa para os maledizentes)

disse à minha vó já falecida que fosse

fofocar para poder curar uma leve depressão que se

lhe apoderara...

E ele estava certo...

Eu mesmo, pelo menos, procuro seguir à risca

os conselhos daquele iatrós de minha vó...

Mas o quero dizer é que tudo isso não faz sentido,

quando recebemos uma triste notícia...

Falo do falecimento do poeta Moacyr Felix,

que nos deixou e que

também deixou bem ou mal

a sua poesia...

O Olimpo que lhe irá julgar...

Como bem pensava Schlegel: Poeta klínei poetam...

É como eu ouvi uma vez e no que sempre acreditei:

'Poetas só são poetas, se são mortos'

Não sei, tive um ato falho, acho que essa frase, se não

me engano, é minha...

Que Deus o proteja e Amém...



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:13
FACTOTUM


Ontem finalmente perdi a preguiça e fui assistir a um filme.

Fui com a Raquel assistir a Factotum. Ontem peguei a

tarde para circular pela Paulista, avendida de minha

paixão. A Paulista representa tudo de Sampa para mim.

Depois de circular pelas Livrarias Belas Artes e Cultura e

bater um papo com um rapaz superlegal da Cultura,

encontrei-me de chofre com a Raquel. Visitamos algumas

lojas e decidimos assistir ao Chinasky. Vê-se claramente

que é um filme para um público específico. E eu, não obstante

esse meu jeito de burguês periférico, senti-me bem à vontade.

Uma porque gosto de Bukowski. Li algumas coisas suas e

principalmente a sua biografia. Para mim escritor é nesse estilo.

Outra: tive a honra de sair com um texto -- motivo desse blog --

O SIMULACRO DO FUTURO, na respeitável revista de literatura

e arte Coyote. E por mera coincidência quem estava lá perfilando

junto ao meu nome?: Charles Bukowski... Então deu pra sentir

que o burguês aqui é só fachada... Quem me vê

assim, nas fotos abaixo, pensa que eu nunca fui um Chinasky

na vida... Meu, trabalhei como office-boy, xerocador

de acetato, arquivista, auxiliar administrativo, regulador de

sinistro, sócio de oficina mecânica, consultor de uma

concessionária de automóveis importados, corretor de seguros,

sócio de uma consultoria, e agora como professor

eventual... Sempre perambulando como Chinasky... A diferença é

que fiquei perambulando dez anos na mesma empresa... Até que

os caras se tocaram que eu era um verdadeiro Chinasky und lebewohl...

Eu fui, por exemplo, um dos primeiros grevistas

da companhia de seguros e de todos os securitários;

e o primeiro também que levou a turma para o Paulistano

da Glória, tia Olga e para umas tias lá na Ipiranga...

Num famoso fast foda...

Outra diferença: nunca fui de maconha (e nada contra, seu imbecil)

embora o Chinasky só fume cigarros no filme...

Beber....eu só não bebia água de bateria...

Mulheres... sai de baixo...que eu era problema...

E quem me conhece sabe como era a fera...

Mas para quem tem uma visão schmal do filme, vai

pensar que o cara só mudo pra lá e pra cá, pícaro, cigarro, mete e bebe...

E é aí que está o grande lance de Chinasky...

Chinasky é um barfly mas não é violento, ele é um homem godotiano...

A sua preguiça é um atentado ao sistema capitalista...

Como numa cena em que a Raquel com muita argúcia sacou:

ele arromba um carro para furtar umas quatro ou cinco guimbas...

Mas ele não está nem aí se é último tipo ou não... Ele só quer

alimentar o seu vício... Sem falar que o cara era um escritor...

Sabe aquele escritor de Rilke...Outra cena legal também:

ele é apresentado a um Paul Rabbit que se apresenta

como outro escritor...

Mas o conceito não bate...

É o chamado silêncio eloqüente...

Já aconteceu isso comigo...

Certa vez deixei o meu Granizos num sebo da Aurora, de

graça, e depois de duas semanas, voltei para bater um papo com o

sebeiro, e ele me disse: ' por que você não escreve livro de auto-ajuda e

mais grosso...' E eu lhe respondi: mas eu escrevo livro de auto-ajuda...

Mas voltando ao Factotum: Chinasky vive a lentidão do tempo...

É o mundo externo que se ajusta aos seus ponteiros da vida e não o

contrário...

Eu poderia estar falando mais de Chinasky...

Mas pela minha própria desídia Chinaskiana não dá...

Só sei que quando saí, eu tinha tomado aquele porre de saudade...

Mas os meus ponteiros àquela hora já estavam todos atrasados...

Por isso saí correndo sem vergonha pelas ruas de Sampa dançando

na chuva com a mea querida Raquel...


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:12

Sobre o Sistema Capitalista


Essa é a minha esperança:

cair numa gôndola dessas

e dar uma congestão

nas cabeças dessas pessoas.



Vou confessar: já tive ódio ferrenho do sistema capitalista.

E isso sem mesmo entender as suas bases, as suas estruturas...

Era um ódio de oitiva... Depois comecei a ler como todo jovem

literatura que fazia uma veemente crítica, e então o caldo engrossou

de vez... Hoje com essa crítica que se faz e sem termos um certo

revisionismo, ainda não sei... Uma coisa é certa: não gostei do que

vi também das experiências até agora de esquerda...

Não sei: acho alguns personagens-militantes

de esquerda muito enfadonhos...

Não gostaria de dizer isso...

Mas vocês podem dizer por mim...

Conheci colegas que admiravam a esquerda, e

não são e não foram corruptos e que já me falavam

de como lidar com esse pessoal que parece que tem

além do idealismo um pequeno cabresto

que circunda as suas cabeças...

Hoje quem não for cego, vai ver na

mídia...

Não preciso nem citar...

E sem falar que muitos me decepcionaram mesmo...

Mas quero falar do sistema capitalista...

O que na verdade nunca

gostei do sistema capitalista, por incrível que possa parecer,

foi do seu pior produto: o pequeno-burguês...

É como se tem dito: dá pra se ter um carro

na garagem, comer um mac donald com o sobrinho no final de semana, ter

a conta do telefone como um artigo de luxo etc...Mas o que não dá de maneira

alguma é aguentar o pequeno-burguês... E explico: o pequeno- burguês seria

um tipo de mercadoria que consome as próprias mercadorias do sistema.

Ou seja: uma mercadoria que se alimenta de si mesma.

Mas que no entanto não se preparou para isso...

Porque o pequeno-burguês é burro...

E a pior coisa do mundo é ver o dinheiro nas mãos

de pessoas sem talento...

E esse é e foi o pecado mortal do sistema capitalista...

Colocar o dinheiro nas mãos de pessoas despreparadas...

Me dêem um milhão de dólares e vejam o que eu faria com o Brasil...

Então é você ver por aí um cara numa bmw que não chegou a

cultivar sequer por um segundo uma pequena fatia do neoprocesso

civilizatório de n.elias...

E o pior que ele é também preconceituoso e metido...

Quem quer ver e sentir o que estou falando

e comentando é só chegar numa dessas livrarias,

porque o novo frisson do pequeno-burguês agora é

consumir cultura...

Bem entendida a palavra consumir...

Chega a ser mesmo bizarro e é

ver naqueles carrinhos de supermercado o

pequeno-burguês misturando

balzac com zibia & poe com...

E o carrinho vai lotando...

Com o pequeno burguês os livros agora vêm envelopados

porque o que interessa ao pequeno burguês é menos

o conteúdo do que a mercadoria...

De modo que o sentido lúdico de folhear um livro

já se perdeu na sua aparência...

Hoje noto, e com muita evidência, por que não gostava

do sistema capitalista...

Na verdade o que sempre abominei,

como abomino até hoje, foi o pequeno-burguês...

É o nosso pequeno-burguês o mais novo pantagruel que a tudo consome...

Quando chegará, enfim, o dia, perguntamos, em que ele consumirá

por voracidade ou por um pequeno descuido ou engano de sua própria natureza

a sua própria morte? É nesse dia que me será consumado (tenham certeza)

o meu mais verdadeiro e não menos obcecado objeto de desejo...

et légomai...



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:10

01/11/2005

guerra civil ou guerra entre civis


Ouço muito falar que estamos numa guerra civil. Isso se dá mais

por uma falta de análise dos conceitos. Eu, a meu modo, julgo

que vivemos uma pequena (quiçá) guerra entre civis, do que

propriamente uma guerra civil. Se eu fosse um desses filósofos,

que andam fazendo palestras por aí, eu diria que se trata mesmo

daquilo que se denomina de senso comum da nação. Antes de serem

conceitos que se cruzam e que se interligam, esses dois conceitos

são antes antípodas do que qualquer outra coisa. A saber:



# se estivéssemos numa guerra civil, os nossos cidadãos não

estariam se automutilando uns aos outros pelas ruas da pólis;



# haveria uma maior organização e conscientização dos cidadãos,

ou o que poderíamos chamar de uma iluminação da caverna platônica;



# o alvo em si não seria o concidadão, mas sim o estado;



# o estado sabe que enquanto houver guerra entre civis,

não haverá em hipótese alguma uma guerra civil;



# ou seja: a guerra entre civis torna-se um anteparo de

um estado inepto, inapto e impotente -- mas que se quer

perene no poder;



# guerra civil implica organização dos cidadãos (bonus sensus);



# guerra entre civis (comunis sensus);



# na guerra civil cai o estado;



# na guerra entre civis caem os cidadãos;



# na guerra entre civis -- interesse por bens do sistema capitalista;



# na guerra civil -- valorizam-se o cidadão, a ética e um certo tipo de moral;



# na guerra entre civis -- livre mercado e livre concorrência;



# na guerra entre civis -- controle de preços;



# na guerra civil valoriza-se o todo;



# na guerra entre civis valoriza-se a individualidade;



Agora não me pergunte se sou favorável a um ou outro,

porque eu apenas com grande equilíbrio eu lhe reponderia

que o meu únco dever é, como sugeria o mestre Platão,

iluminar a vasta escuridão da tua caverna... et légomai...

# obs: toma a palavra guerra não no seu conceito mais universal.


enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:07
Sobre Bush, Chavez & Lula


Aí está a nova trindade das Américas.

E ninguém aí dorme de meia.

Um tido como um tirano democrata por muitos.

Outro desafiando o poder central das Américas,

como o apoio de Dieguito.

E o terceiro: Lula.

De todos o que mais mudou e o que mais lucrará é o Lula.

Não é que mudou...

É que o homem é mais esperto

do que pensa a nossa vã filosofia.

Em tempos de antanho, eu provavelmente estaria pegando

a minha Central do Brasil para discursar

a favor deste ou daquele.

Mas sou tomado de uma tal letargia,

que não consigo nem comprar uma ricota na esquina.

Sou o que se pode chamar de O ALIENADO POLÍTICO.

Mas isso tem uma explicação.

Não acredito mais nos homens.

Sou um democrata que recuperou as asas de conservador.

Também não sou conservador.

Sou um anarco-conservador-independente.

Tenho as minhas próprias mores et leges...

E não estou nem aí para o que dizem disso

ou daquilo.

O dia que eu achar que uma dessas figuras

poderá pensar por mim, será o fim.

Mas sou um sub-conjunto inserido num conjunto mais universal,

e isso sem a minha anuência ou beneplácito -- que bem que se diga.

De modo que sou também afetado de uma certa maneira.

Já tive raiva do Bush, já me encantei com

Chavez e sempre votei em Lula.

Balancete: não me encanto por nenhum dos três,

embora veja virtudes e defeitos na tríade americana.

Como bem se diz: consertam relógios com luvas de boxe...

Mas no frigir dos ovos, alguém quererá comer esse delicioso omelete...

Mas para quem que já teve pequenas congestões como eu,

prefiro ficar de longe assistindo a esse filme

que não vai dar em nada. Digo não dar em

nada, como bonus popular

(plebis - genitivo singular da terceira) -- bem entendido.

Não sou o arauto do apocalipse,

mas abaixo um trecho de meu Granizos dos Deuses,

para sentir o que o vate plutão prenuncia.

Depois guardar e checar pra ver...

et bye...




enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:05

o matador de fantasmas


sacou do revólver

e deu o primeiro tiro

mas não acertou

revirou o tambor e o almejou

com um segundo certeiro

que quase o flagrou

nem a roleta-russa adiantava

adiantou

de uma sinapse a outra

seus fantasmas forjavam

casulos forjavam

ninhos



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:03
Os detonadores de alfarrábios


para a colega Luciana Rugene



Comprei uma bereta 365 e dei pro Ronaldinho

- do processo louco e do advogado nóia.

O calibre 12 dei pro Dedê, mas falei-lhe:

segura firme no gatilho -

pro Emersão Vila Nicolau,

uma automática 467 importada.

Fizemos por trinta e cinco dias seguidos

toda a escavação.

Saímos na boca do lobo.

Balanço final: três Schiller versão

original; dois Ibsen em castelhano,

um Schopenhauer todo destruído,

mais um Wittgenstein rasurado.

Agora é só esperar o Dedê ler

as obras completas de Dostoievski,

que o caldo vai engrossar...

E vai ter gente nova na trupe, me disseram...

Aguardem...



enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:02

ACERCA DOS ESCRIVINHADORES BARATOS


Desculpem-me, não quero ser chato. Errar todo mundo erra.

Aqui mesmo vocês verão erros e mais erros de ortografia,

de sintaxe etc. Mas há certos tipos de erros que não são

desleixo, relaxo, ou coisa parecida. E pode ser um erro apenas,

para demonstrar uma falha lastimável em certos escritores: que

é a falta de leitura. Muito se afirma que só escreve bem, quem

também lê bem. Não tenho tanta certeza disso. Mas no fundo

há um fundo de verdade. Com o advento da internet, a coisa

de ser escritor extrapolou. E isso é bom. Mas há, na minha opinião,

que se fazer algumas distinções. Temos que distinguir o escrevinhador

barato do escritor clássico tradicional. E não raro vemos textos fabulosos

de pessoas que têm mesmo o talento para a 'verborragia escritural'.

É lamentável dizer: mas a figura do antigo intelectual, há muito que

se perdeu. Hoje vale mais a notoriedade midiática - adquirida das mais

variegadas maneiras e também com um bom pacote de netmarketing -

para que o indivíduo se torne um mass media, e responda por tudo

e por todos. É requestado a falar desde Hegel a Luciano,

sem que alguém de verdade lhe conteste. Mas para todo mal,

há um placebo e vice-versa. É fácil: eu, particularmente

e notadamente, percebo esses engodos, através de um

processo muito simples e que requer um pouco de malitia:

quem não tem o hábito de bons livros, ou tem uma leitura parca,

normalmente acentua palavras, que já não mais se acentuam.

Apõe crases em lugares indevidos. Conjuga de modo canhestro

certos verbos irregulares... Sem falar no conteúdo programático...

As técnicas - para nos livrarmos dos péssimos escrivinhadores

baratos ou dos arremedos pós-midiáticos - são inúmeras...

Mas para isso... há que se preparar como um samurai se

prepara para uma batalha. E para isso, há que se ler muito...

Ontem mesmo, eu estava relendo aleatoriamente

um pouco aqui e um pouco acolá do velho Machado...

E é quando damos um salto ao século passado, é que

percebemos o quanto que o conceito de escritor volatizou-se

nas brumas do tempo... Vivemos mesmo num mundo de

escrivinhadores baratos... Do vomitório metafísico ou similar...

E eu, meus amigos, eu mesmo..nem mesmo eu...

eu me salvo... kaí légomai...




enviada por wilson luques costa



17/01/2006 11:00

30/11/2005

A culpa midiática


A respeitada filósofa Marilena Chaui, volta a interferir com

os seus bem engendrados comentários. Primeiro: tenho um

respeito incomensurável por essa tão eminente filósofa.

Todavia, e apesar de considerar que a nossa imprensa

ocre-acre cria e recria factóides para a sua própria

sobrevivência (um oroboro) ou melhor: um urubu que se

alimenta da carnificina humana, tenho que considerar

alguns pontos:



- Lula não poderia e nem pode se abster de nossa crise,

como se Carolina não estivesse na sua janela;



- Deveria vir a público colocar o seu 'poder' para um plebiscito;



- quem não deve não teme;



- teria medo de algum engendramento mais perverso do que houvera?



- escondeu-se atrás de anteparos - factóides ou não: Valério,

Dirceu, BMG etc;



- desconsiderou a capacidade do povo em avaliá-lo com isenção,

porque temeu pela manobra política;



- se tudo não passa de farsa, teria que repudiar - de imediato -

qualquer tentativa de renovados factóides políticos;



- não digo censurar a imprensa, mas vir a público desmentir,

sempre que se fizesse necessário;



- não quero de modo algum inocentar ou indultar a imprensa,

porque parte significativa dela desviou-se pelos interesses

plutocráticos;



- a história avaliará com melhores olhos e com justiça o

Brasil hodierno, mas Lula maculou-se, a meu ver, com o

seu adrede silêncio;



Jamais pensei em minha vida que deveria proferir essa frase,

num governo essencialmente democrático:



'O político pensa na próxima eleição; o estadista na

próxima geração.'



Resta saber se Lula tem ainda em sua algibeira mais tempo

para ser político ou estadista...



Como já dizia aquele Fiori Giglioti: 'o tempo passa..."

und légomai...




enviada por wilson luques costa



17/01/2006 10:58

El burlador barato


Sempre fui um bom moço. Trabalhador.

Culto. Estudioso. Mas não adiantou.

Nos bailes era sempre preterido pelo

menino mais bonito da rua.

Nas festinhas de aniversário nem nas

fotos eu saía. Estava sempre encostado

na parede e sozinho. Nem nos cadernos

de recordação constava o meu nome.

Nem mesmo num ato de pura compaixão.

Os meninos todos do meu bairro zombavam

de mim. Mais tarde, resolvi mudar

a minha tática. Virei de repente o garanhão

da turma. O meu falo por uma dessas sortes

da natureza começou a enrijecer.

O diâmetro alargou-se de modo considerável.

Mas eu não notava. Também virei uma

espécie de canalha. E eu com aquele meu

jeito esquizóide parecia gato em

teto de zinco quente. Virei bolinha de mercúrio

nas mãos de minhas mulheres.

Virei Don Juan de la Mancha,

Valentino, Casanova...

Algumas diziam-me da sua espessura,

do raio, diâmetro e da minha ternura...

Não sei...

Não entendo de ....

Só sei que de uma hora para

a outra começaram

a me chamar de canalha, covarde...

Hoje até me pedem para escrever

nos seus cadernos

de recordação mais íntimos...

E eu, como um pífio Casanova, escrevo:

Don Juan de La Mancha -

lo incrible conquistador

de las mujeres desesperadas...

Canalha, vingativo, covarde...




enviada por wilson luques costa



17/01/2006 10:56
13/12/2005

Golens semi-suicidas


Uma coisa é certa. Ninguém, ou quase a sua grande maioria,

está contente com a sua vida. Uns com razões que vão

além das razões. Falta de gana, de grana, filho drogado, amor

não correspondido, vazio existencial. Outros por outras razões:

têm grana, pais que fizeram doutorado na Alemanha, França, mas

mesmo assim metem o pé na jaca e sobem em cima do telhado

buscando a última esperança. Parece que aquilo que chamamos

de felicidade não existe. O homem moderno nunca está contente:

e isso vai da dona de casa, passando pelo escritor, poeta, administrador

etc. O homem parece um golem que não aceitou o sopro divino, por isso

vive se vingando. Mas ao mesmo tempo, tem medo de morrer. É estranho,

o suicídio se dá mais na esfera na escrita, do conceito. O homem não quer

viver, mas também não quer morrer e aí vive pisando nesse purgatório. Vive

culpando o seu criador e exorcismando todos os seus pecados. O homem

não foi fadado mesmo à felicidade. Por isso vive propugnando a mudança

do mundo, criando e recriando embates, como se houvesse um único culpado.

E é por isso também que temos boa ou má literatura, economistas das mais

variadas vertentes, guerra, paz, armistício, amor e paixão. A vida só é bela

porque tem a sua morte anunciada. Imaginem todos nós imortais. Quem agüentaria?

Se já nem agüentamos os imortais da academia... Se não nos fosse dada a possibilidade

de extinguir um dia, o que seria de nós todos? Alguém já imaginou se não houvesse a morte,

menina estranha a que todos tememos? Imaginem hoje Hitler, Pol Pot, os primatas e mais

um arrazoado de feras e mais feras, e você sabendo que não poderia nem aventar

um torniquete na güela desses caras. A beleza da vida talvez seja essa modulação

permanente entre a euforia e o tédio. Mas atrás de tudo isso está a melancolia do homem,

a bile azulada dos gregos que nos incapacita para tudo. Não vemos razão de ser em nada.

Precisamos de vitórias momentâneas e algumas derrotas no meio do caminho.

Não queremos a vida, mas também não queremos a morte. Vivemos não porque queremos

viver, mas porque não queremos morrer. E aí nos ocultamos atrás das ideologias, troféus, prêmios,

viagens, para mitigarmos o vazio que nos acompanha. Sabemos que perderemos na final,

mas continuamos jogando o jogo, comprando o juiz e ludibriando o adversário.

Mas o fato é que essa morte que sentimos é apenas uma morte simbólica,

que dá vazão à arte, ao xingamento, à transgressão.

O morrer simbólico, talvez seja a nossa incapacidade de dar vazão à vida.

Seria aquilo que Baudelaire denominaria de spleen.

Quando morrem as nossas esperanças, morre também

um pouquinho de nós a cada dia. A nossa morte simbólica tem muito mais a ver com

as mortes das próximas gerações.

Somos suicidas confessos de nossos ideais.

Pulamos do nosso barco faz tempo.

Vivemos um momento perigoso: estamos morrendo

simbolicamente para depois morrermos de verdade.

Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Há um descompasso entre a ciência e a ideologia...

Para uma geração sem esperança, trinta anos seria muito...

- Cem anos?

- Acho que esse Deus está sendo muito generoso contigo...

Diria assim um certo rei cabalista....



enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:20
o espelho roubado de narciso


Já não sei mais o que sou...

Quem roubou o meu espelho de narciso?



Vivemos mesmo num mundo totalmente estressado e estressante.

Parece mesmo que o tal de Andy acertou na mosca. Queremos

os nossos quinze minutos a qualquer custo. Por que não a eternidade?

Contentamo-nos com a migalha de tempo. E isso é em todo campo

ou espaço. Na literatura todo mundo quer ter os seus quinze. Na ciência

todos querem ter o seu... Isso na imprensa, mídia geral...

E para isso não medimos esforços. Fazemos pactos, barganhas, arranjos...

Não sou psicanalista - embora tenha uma especialização em psicologia -

que não é contudo o meu forte. Aliás qual é o meu forte? Mas eu acho

que tudo isso reflete uma angústia primordial... E atrás disso (behind) há

algo mais perigoso e soturno, que é a nossa plena solidão... Vivenciamos

o paradoxo da comunicação. Porque quanto mais e-mails, faxes, celulares

telefones fixos etc... Menor a comunicação...

Somos os narcisistas que nem conseguem enxergar

o seu próprio lago... Por isso morremos de amor por nós mesmos...

A nossa imago está fragmentada nos outros...

Mas os outros não nos são piedosos, condescendentes...

Por isso essa necessidade da ratificação constante...

Vivemos a era do vazio...

Onde o ser humano não é mais a matéria-prima

do amor e da amizade...

Tentamos então ao menos ser amados

(ou odiados)

não por aquilo que somos,

mas por aquilo que fazemos do que somos:

pelo nosso labor, trabalho...

Mas não só queremos os quinze minutos de Andy,

queremos mais (somos glutões solitários), e para isso forjamos uma cilada

para o nosso controle...

Vivemos de nosso conceito: homem...

O que importa é o conceito homem...

Não o homem carne, osso, braços...

O homem virtual é o que nos interessa, não mais a virtude...

O homem virtual é o que tem a virtù...

O outro, pouco nos interessa...

Ou melhor: só nos interessa, quando podemos

resgatar nele um pouco de nós

- para completar esse golem que somos -

forjados por algum deus desconhecido...

Alguém em algum momento peculiar da história

furtou-nos o que tínhamos de mais precioso:

o nosso espelho de narciso...

Por isso a procura louca e incessante de seus estilhaços no outro...

Se, como bem disse Sartre, 'o inferno são os outros"

- teremos mesmo que suportar esse caldeirão

dos diabos para vermos um

pedaço mínimo que seja de nós resgatado ainda há tempo...

Agora, parafraseando mais uma vez Sartre:

os outros são o inferno, mas - nessa era do vazio -

o outro pode até significar também a nossa salvação...

É só buscarmos um pouco do outro no outro;

e um pouco de nós em nós e reconstituirmos essa

lagoa azul dourada de fênix...

(O espéculo-espelho de uma nova era de antinarcisos)

Isso se já não tivermos muito antes morrido por dentro de nós mesmos...

Mas creio que ainda há tempo...

Quem diria que nós poderíamos ser ainda

a nossa própria salvação?

Evidentemente que sem a ajuda do outro nada seria possível,

mas buscando em nós mesmos os estilhaços que um dia

se espatifaram pela vida no meio do caminho...

Talvez aí sejamos íntegros e inteiros...

Um ser dotado para a morte...

O Dasein verdadeiro...

Emet de um Deus supremo...

#sem revisão final.


enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:19
A ESCRITA


Às vezes, eu fico me perguntando por que o escritor tem

todo esse status. Sinceramente, não sei por que isso acontece.

O cara cria uma estória e pronto: é glorificado como um semideus.

Poderíamos cair naquilo que na filosofia chamar-se-ia de bom senso

e senso comum. Mas não vejo motivos para tanto. Será que fazemos

aquele jogo de premissas? Silogismos absolutos?

Todo escritor é inteligente... ele escreve... logo...

Mas eu não vejo assim. Quando neófito leitor, eu até que achava que

o cara era uma sumidade. Mas hoje para mim já não é assim. Com efeito,

não vejo nada em João Cabral, Drummond... coisas bacanas, mas nada de novo,

e tantos outros...

E não me venham dizer que seus poemas podem mudar o mundo.

Balela!

Se você vir a vida e a biografia desses 'monstros sagrados' vai perceber

que tinham os mesmos defeitos, as mesmas gulas, os mesmos engendramentos

de poder, de articulação. Não pense você que tudo não foi adrede preparado.

Sim, o marketing já existe desde os primórdios dos tempos. É que cada um tem

o seu desejo de consumo. Não dê uma limusine para quem quer prêmios. De modo

que não vejo algo sacro nisso tudo; e nem pelo meu lado julgo-me um sacrílego

ou coisa assim. Não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre isso, mas

você notará as relações incestuosas entre editor, mercado, poder e...

Derrida argumenta sobre isso, quando fala dos bororos e o seu diálogo

com Lévy. Pelo que parece, Lévy repudia esse poder escritural...

Mas a escrita tem esse poder... Ninguém apresenta uma pessoa à

outra dizendo-lhe: é um leitor... E se analisarmos com isenção, veremos

que valeria mais ser leitor do que escritor, porque se recebe mais do que se

pode doar... Por que um colóquio não pode ter a força de uma persuasão?

Por que apostamos tudo no livro? Veja, não vou martirizar o livro, objeto

sempre do meu desejo, mas depositar-lhe toda uma esperança de conhecimento

e saber, seria demais...Acreditar na transformação do mundo somente pelos

livros, é não acreditar também numa indústria que gera milhões e milhões de

não sei quanto por uma mera vaidade ou distração. Seria apenas contabilidade

tosca, estatística para a ONU. Claro que a escrita tem a sua função...

Eu mesmo agora o que estou fazendo aqui? Estou me comunicando de modo canhestro,

tentando dar algumas pausas, usar algumas palavras, que nem sempre serão

bem codificadas pelo leitor. Mas poderia também estar falando sobre isso...

Mas não sei por que a escrita tem esse poder de persuasão... Por Platão

estaríamos ainda na oralidade... Mas palavras se perdem no vento e não

geram doxa nec pecunia...

und légomai...


enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:18
a migrante


Boa tarde,

Eu vim de Curumaiama e tenho seis filhos para criar...

Se vocês puderem me dar uma juda...uma simples ajuda...

uma moeda...um passe...um litro de leite...um trocado...

uma fralda...um sapato...um xale...um carrinho de bebê...

um lanche...um almoço...um café...uma saia...uma calça...

uma mamadeira...uma casa... um quartinho......um marido...

um pouco de carinho...uma fraternidade...um beijo...um abraço...

um aperto de mão...um bom dia...um passe bem...um afago...um xamego...

um livro...uma solidariedade...uma compreensão...uma escola...um emprego...

uma lata de leite...um suicídio...uma bala na minha cabeça...

Muito obrigado...

Deus lhes ajude e fiquem com Deus...


enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:17
19/12/2005

Direto da província


Sim! Somos provincianos! E eu poderia simplesmente parar por aqui,

porque esta frase por si só se bastaria. Mas resta uma pequena

explicação. Só se orgulha de estar em algo, algum lugar, ou vencer

algo ou em algum lugar, se se considera aquém desse lugar ou desse algo.

Explico: um time superior não teria orgulho nenhum em vencer

um time sabidamente inferior ao seu. Todavia, o inverso já caberia.

Ou seja: sentimos orgulho, e uma espécie de devassidão da alma,

quando nos libertamos de arcaísmos patológicos e tupiniquins.

Exemplo: nunca vi ou ouvi, e olha que não sou cego

nem surdo, um americano orgulhar-se de vir estudar aqui

por estas paragens. O máximo a que ele se submeteria era vir aqui

para traçar uma bela amazona amazonas, como há muito tem feito,

ou dar continuidade à devastação estrutural de nossa mata.

Ou seja: ao americano só lhe interessa o nosso lado arcaico, primitivo,

que há muito ele perdeu. Somos uma espécie de inconsciente coletivo

dos stars gringos, uma memória primeva e primordial. Porém, conosco

dá-se o contrário. O que vamos efetivamente buscar na terra dos gringos?

A saber: money, status, cultura, música, poesia, dança, cinema, literatura,

teatro, rebeldia, alucinação, sistema moral, drogas, sexo and rock and roll...

E isso é bem notório no brasileiro. Aliás: tudo que se faz e que se estuda,

no Brasil, não terá nenhuma valia se comparado com qualquer boca de

porco dos americanos. E creiam: e isso não é o americano que acha,

para o nosso mais tétrico espanto...

Sim!

Meu camarada...

Quem faz apologia do uncle sam é o próprio brazilian tupy yes sim tupy...

E depois ficamos lamentando que eles ficam nos chamando

de nhambiquaras, tupiniquins, bororos...

Eu até que não me ofenderia com esses apodos, desde que eles

estivessem dispostos (eles, os americanos) a receber uma minha

resposta na língua dos helenos...

E eu lhes diria mais ou menos assim: pseudés ésti pan tó génos twn kolákwn...

Desculpem-me!

O meu computador ainda não foi alfabetizado em grego...

und légomai...


enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:16

21/12/2005

Lacan e a paranóia


Comecei a ler uma interessante biografia de Lacan. Gosto muito de

biografias. Sei que há indivíduos que as censuram. Mas cada qual

com o seu gosto. Há um determinado capítulo que aborda sobre um caso

paranóico. Mas isso é no começo. Poxa, pensei: há uma linha tênue

entre a paranóia e a genialidade. Pretendo seguir em frente no livro,

porque está muito legal. Mas quem me lê aqui, e do jeito que escrevo,

não terá dúvidas de que eu seja um caso patológico. Melhor: paranóico.

Pois vejamos: ataco com as minhas palavras, como se eu fosse um assassino

de imagens - um imagocida. Sou, para quem me lê, um megalômano, pois

faço apologia de mim mesmo. Tenho as minhas confusões mentais etc.

Na verdade, todo diagnóstico me leva a crer, que eu seja um paranóico

pervetido. Mas o que não me dá base suficiente para acreditar nessa

diagnose, é o fato de eu já ter sido elogiado, como já várias vezes citei aqui,

por pessoas que não são tão ruins assim da cabeça. Mas eu não tenho

dúvida de que a maioria das pessoas me vêem mais mesmo como um

caso de morbidez degenerescente. É como eu tenho dito nas minhas

reflexões de um homem doente: numa sociedade doente, um homem

doente é um homem sadio. Resta saber quem está mais paranóico mesmo,

eu ou a sociedade astuta, que não consegue enxergar além de

seus umbigos. E vamos verificar qual será mesmo o maior dos hospícios..

Como diria aquele velho homem condenado: que eu enlouqueça

antes com as minhas verdades, ao invés de ser julgado e setenciado

pelas suas mentiras. Sim, a loucura, quero que esta seja a minha

última punição...



enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:15
o poeta / o fazedor


Para a minha querida amiga e poeta Ieda Estergilda de Abreu.



Poiésis vem do verbo grego poiein, que siginifica fazer. E isso talvez

seja uma frustração para quem deseja definir o que seja um poeta.

Borges tem um livro, ou texto, não me recordo - ou poesia, acho que é

poesia, que se chama o fazedor. Pelo que eu saiba e por entrevista

do poeta e escritor argentino, Borges não conhecia muito bem o grego.

O que não significa nada. Mas é muito frustrante para um incipiente ou

um insipiente poeta saber que aquilo que ele faz seja um simples fazer.

O verbo no decurso do tempo ganhou outros contornos, e o verbo 'ganhou'

é bem exeqüível para o caso em tela. Porque seria, sem dúvida, e certamente,

muito melhor (para a grande maioria) ser um poeta do que um simples fazedor.

É demasiadamente frustrante querer definir poesia ou o fazer poético.

Sobretudo quando se tenta fazer uma peneira do que seja verdadeira

poesia ou não. Há textos (que na fala de um malabarista das palavras)

que ganham densidade, incorporam, vicejam... Mas não me parece que

sejam, com efeito, poesia. Há uma quantidade razoável de escritos e bons escritos

que contêm alma, amor, salvação do mundo etc. Textos bem elaborados,

versos bem metrificados etc. Mas não chegam, não sei por que, a ser poesia.

E a partir daí sempre emerge a dúvida: isso é poesia? Quantas vezes já não

vimos um bom ator brilhar sobre um púlpito, e quase gritarmos: - Sim, esse é um poeta!

Mas creio ainda que não seja poesia. A poesia não obstante ser elaborada da

seiva das palavras, só é poesia quando emana do coração lídimo do poeta.

A poesia, não raras as vezes, esconde-se atrás do poeta. Por isso a toda

hora duvidamos se é poesia ou não. Cabe, destarte, ao leitor, ou ao próprio

poeta, reconhecer a verdadeira poesia e o verdadeiro poeta.

Poeta, objeto obscuro e difícil de se definir e de se reconhecer.

Se, por acaso, vocês, neste Natal, encontrarem um poeta ou (e)

uma poeta andando perdidos por aí, não hesitem, encaminhem

de presente para mim...

O poeta é uma pérola, que muitas vezes o lodo dessa

vida não nos deixa entrever.

Ser poeta é ser mesmo ofuscado pela lama abjeta dessa vida...

und légomai...



enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:14

26/12/2005

O livre arbítrio de Deus


Parece que viemos ao mundo para sermos alguma coisa. E isso é uma coisa

bem aristotélica. Ou também: sartriana. E é isso talvez que nos diferencia

dos chamados 'animais irracionais'. Pergunte a alguém sobre o que ele é,

e ele sempre tentará responder: sou um médico, sou mum estudante, sou

uma mulher, sou um homem, sou um escritor, sou um poeta... Quando falo

de Aristóteles, tento falar das quatro causas: material, formal, eficiente e

final. Ou seja: não basta já vir pronto. Temos que nos construir historicamente.

Por exemplo: não basta Maria ser Maria. João ser João. Antonio ser Antonio.

Será que Deus joga dado com os homens? Mas fomos concebidos como? Não

foi por uma relação de amor, ódio ou distração? Aí vem Sartre: desculpe-me os

especialistas sartrianos. Temos que nos construir, porque o nosso criador, num

momento de puro desleixo, deixou-nos em nossas duas primeiras causas e olha

lá. Como se diria: cansou-se a causa eficiente e nos deixou nesse deserto com

cuia e pá nas mãos. Agora somos nós a causa eficiente de nós mesmos.

Mas parafraseando Freud agora: o que quer um homem? E nós, causa eficiente

de nós mesmos, temos então que nos construir sem nos deixarmos cair na deriva.

E essa é a grande questão: o que faço de mim, esse ser in derelictio, nesse mundo

historicamente construído? Faço-me um médico? Um cirurgião-dentista? Um advogado?

Um político? Um poeta? Um escritor? Um filósofo? Tento me construir dessa massa amorfa?

O que quero para mim? Qual é o meu fim universal? A minha essência (ousía)?

O mundo não aceita o simplesmente ser. Isso nos colocaria no border line

da irracionalidade. Então quer dizer que Deus nos abandonou no meio

do caminho? Um livre-arbítrio condicionado a partir de um momento estanque?

Contruirmos a nossa liberdade ou prisão? Kínei, meu camarada!

Diria esse Deus... Mas não se sabe exatamente para aonde. Se na frente o abismo

ou Deus... Temos que nos transformar naquilo que não queremos ou queremos?

O que queremos? O que querem de nós? Quando me perguntam, pelas ruas, quem sou...

Eu sempre respondo: sou matéria e forma de Deus, sou causa eficiente de mim mesmo,

o meu fim a mim me pertence... E vê se não me atrapalha. Mas, na verdade, eu não sei

exatamente quem sou, e não teria a menor intenção também de sabê-lo...

Sou simplesmente o que sou... Acho mesmo que a Deus o meu futuro pertence.

Sou mesmo um demiurgo dos muitos estouvados, diria assim um queridíssimo

amigo meu, aqui da Vila Ré... Por isso jogo de novo essa tremenda bucha na

mão de Deus, desejando imensamente que Nietzsche esteja errado...

Estamos mesmo on the road enquanto Deus vai jogando dados com

o seu imenso universo...

oh, mein freund und old camarada!



enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:13

imago et scriptum


Que a escrita mudou e muito contribuiu para a memória do homem,

isso é mais que acertado. Mas gostaria de contrapor um outro lado

da moeda: que na era da imagem e da escrita houve o declínio ético-moral

da humanidade. Hoje em dia, precisamos demandar um número quase

inconseqüente de documentos e imagens para se ter uma verdade. Haja vista

os dossiês dos fóruns e similares. Para tudo há que se anexar documentos e

documentos, imagens e mais imagens, e mesmo assim temos dúvidas e mais

dúvidas quanto às verdades desses escritos e imagens. Documentos e

imagens são falsificados e se colocam como imagens e escritas falsificadas

do homem pós-moderno. Para tudo há que se ter um documento. Por exemplo,

precisamos escrever um verso, anexar ao dossiê uma conta de luz, escrever

na agenda o nosso encontro. Mas falo não no sentido de memória, mas sim no

sentido de comprovação de nossos atos. Por isso as agendas das raparigas

de plantão. A fala tornou-se insuficiente. A fala não cabe mais na boca dos homens.

Por isso esse desespero de registrar tudo. Checar tudo. Não confiamos mais no homem,

mas confiamos naquilo que o homem registra. Isso, de uma certa forma, equivale

a dizer que o homem perdeu aquilo que lhe era mais sagrado. Vou citar um exemplo

meu: se digo algo, isso de nada vale. Cadê os documentos? As fotos? Evidente

que a grande maioria tem uma grande propensão à mentira, por isso essa exigência.

Mas será que o homem mudou assim tão radicalmente? Será que a odisséia era uma

fábula mesma? Por exemplo: se eu vos contar que eu havia feito um texto muito

melhor que esse que vos apresento... iríeis acreditar? Mas o tempo expirou e bau...

Mas tento recuperar o meu pensamento, tentando salvar a cada dois minutos

esses fragmentos de memória. Será que o homem vale mais porque escreve?

Ou porque escreve vale mais? Sempre achei que o nordestino brasileiro tinha

um quê de helenidade. Vejam as cantorias, as poesias do sertão. O fio do bigode

como comprovação fiduciária: a palavra do nordestino. Lembram-me histórias

de meu avô da Chapada Diamantina que o meu pai me contava. Lembram-me

fatos aqui da Vila Ré quando um nordestino disse a um camarada que entrou

em litígio com ele: fuja, meu camarada, aqui é a palavra de um nordestino.

E não é que o cabra se pirulitou mesmo. Penso para resumir que entre

escrita e oralidade há um fosso muito maior do que poderemos deduzir.

Há um fosso ético-moral entre o homo scriptum e o homo oralis.

Romper escrita, gera processo (inocuidade / procrastinação) -- romper palavra,

gera vingança (destinação). Como se diz: vingar é também vindicar (vindicare)

o que é também lícito aos homens de bem.






enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:11
27/12/2005

Leituras de Lacan


Na psicologia tudo tenta se resolver de modo simplista. Tem síndrome

de tal. É porque é um homossexual enrustido. Tem paranóia. É porque

na infância queria dar o loló e não conseguiu. Tem delírio alucinatório

às três da matina depois de ingerir três papelotes da mardita e beber

mais de dois litros de uísque do vizinho contrabandeado. É porque

não fez o troca-troca necessário na fase anal. Pronto! Achei a solução!

É só fazer o exame de próstata no parto do menino. Enfie um tolete

daqueles dos grandes e pronto: adeus paranóia, adeus síndrome da

ansiedade, adeus dissemetria frenal (essa eu que inventei), adeus esquizofrenia,

adeus consultórios mais luxuriosos do pacaembu, jardins e adjacências.

Nossa! Meu Deus! O que um dedo no cu não faria para o bem-estar

dessa nossa louca humanidade! und légomai...




enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:09



A VINGANÇA DE DEUS PRIAPO


Talvez contando assim, você possa até imaginar que eu seja

um louco, que eu não deveria estar contando essas coisas

para você, mas absolutamente, em hipótese alguma, foi, é,

ou será esse meu desejo. Sei também que a essa hora depois

de um dia tumultuado, quando tenta assentar de forma harmoniosa

os seus lóbulos no travesseiro, não seria o momento de estar

relatando esses episódios soturnos, que causam mais rancor

que solidariedade e compaixão. Mas foi assim: quando eu beijava

os seus seios flácidos, quando eu sugava aquela teta murcha,

quando eu arrancava o último pêlo com os meus dentes cariados

daquele púbis fedorento, que eu percebi que aquilo tudo não tinha

mais sentido para mim, não, aquilo tudo não era fantasia, aquilo

tudo era real, aquilo tudo não me apetecia mais, eu não queria beber mais

aquele mênstruo que escorria entre aquelas coxas vergastadas pela

ignóbil celulite, eu queria vingança, e eu olhava para os seus dentes

cariados, os molares já se ausentavam, sua boca era uma carniça fétida,

putrefata, seu pescoço hospedava pelancas irremovíveis, seus olhos

eram duas encovas entreabertas, a sua fala era um tartamudear incessante,

e eu lhe enfiava o meu phallo com desdém, eu regorgitava na sua cara

um esperma leitoso, um esperma em estado terminal, ela, por sua vez,

não se fazia de rogada, ela me pedia mais, mas eu não podia mais lhe

conceder o que ela queria, nós que sempre trilhamos caminhos opostos,

como essas estátuas de jardins, ela me implorava mais um copo de esperma,

sua boca silente sustentava um irrefreável desejo, de meu pênis gotejavam

pruridos de saciedade, virei-me de lado e adormeci, sobre a minha glande

desabrochava a pátina da maldade, eu, deus priapo, não amava mais a inocência,

depois de trinta anos, meus espermas eram só gotas de vingança.




enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:08
28/12/2005

escolinha de escritores


Você quer ser escritor? Então é o seguinte:

vai falando, vai escrevendo, isso, vai falando,

isso, vai escrevendo, agora, pára um pouco,

cansou? não cansou? então vai falando, isso,

agora, vai escrevendo, isso, pensa agora naquele

filho da puta de uma rapariga que você queria

dar umas porradas, isso soca as teclas do

computa, isso, socou? então mete os dedos

nos teclados, agora pensa que você é chopin,

isso, agora você é kollreuter, isso, beethoven agora,

porra, agora é wagner, as walkírias, vai, meu irmão,

soca o bicho, socou, soca mais, agora pausa, adágio,

agora, de novo, vai pra cima, acelera, meu irmão,

vai pra cima, o quê? cansou? porra,

meu irmão, se tu não tens um ideário

na cabeça nem um sonho louco nas

mãos, como poderás querer ser um escritor?



enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:06

Cárcere privado


Não suporta mais o calabouço. Vive numa verdadeira masmorra.

Encontra-se em total ostracismo desde 1963. Ele jamais esquece

a data exata nem o horário. Era uma segunda-feira chuvosa.

A luz faltara naquele dia. Foi o pior dia de sua vida. Nem se recorda

direito. Contam-lhe que só havia cinco testemunhas. Mas ele nem

quer que lhe lembrem. Ele tenta desesperadamente olvidar este fato.

Que para ele foi uma verdadeira tragédia. Anda de lá pra cá como

um desesperado. Já tentou todas as formas de fuga. É um cárcere

de segurança máxima. Muitos de seus companheiros tentaram fugir

e não conseguiram. Outros tentaram também, mas se viram malograr

nos seus intentos. Mas ele tenta todo dia uma forma (uma artimanha).

As janelas são bem seguras. Não há subterrâneos no local. Muito menos

visistas especiais. É o cárcere mais seguro do planeta. Em vão ele tenta

fugir. Todo dia ele tenta e todo dia ele recomeça. Já pensou em estourar

os miolos, mas logo se distrai indo ao trabalho, assistindo ao futebol, bebendo

com os amigos, paquerando a vizinha, jogando um bilhar, fumando um strike,

lendo os jornais, convidando os amigos, jogando a biriba...




enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:05

29/12/2005

A América Latina


Eu sempre achei que projetos de Estado nunca dariam certo. E vejo

que tenho um pouco de razão. Embora haja os pensadores ou os chamados

tanques de pensamento - mas a coisa não se dá adrede. É a famosa

geração espontânea. É quando ninguém mais acredita é que se deve

acreditar. Sim! Estou falando da América Latina - que bem ou mal - e

com algumas desilusões, está se transformando na calada da noite

e de forma democrática, naquilo que os fuzis e as beretas não

conseguiram na década de sessenta. Então olhem ao rededor: Brasil,

Bolívia, Venezuela, Uruguai... E vamos admitir: bem... não é uma esquerda

sinistra como bem a queria Che... Sim, pode-se dizer de um Chávez e

de um cocaleiro...mas vamos ver até quando... Há uma certa suspicácia,

quanto ao BrasiL, é certo... Já não temos mais noção do que seja direita

e esquerda... Mas o que me faz ressaltar aos olhos, é que vivemos numa

desarticulação total das massas... Evidente que poderão argumentar que

as massas estão aí e que estão sendo boicotadas pela mídia...

Também, posso concordar... Vide sem-terras, farcs e outras que não

temos tido conhecimento... Mas o negócio tem se dado mais pelo

voto do que pela rebeldia alucinada dos intelectuais, professores,

sindicalistas etc... E existe uma explicação para tudo isso: as universidades

foram sucateadas e manietadas pelo capitalismo. O sistema capitalista

com a propagação de inúmeras universidades, adentrou (de forma sub-reptícia)

alguns bolsões de resistência e os algemou crudelissimamente. E sem anestesia.

Criou-se a emulação por titulações e desviou-se o primeiro intento de

toda e qualquer universidade que se preze, que é construir conhecimento

e resistência. Os sindicatos foram destruídos... Ou melhor: transformados

em agências de emprego. Onde havia Lula, há Managers. Criou-se um

exército de desempregados e mudou-se o foco do interesse.

Agora não queremos mais a redução da jornada de trabalho.

Não, não! Queremos um mísero trabalho.

De explorados na mais-valia, queremos ser a mais-valia perene e irredutível.

Exacerbou-se o valor moral do trabalho.

Paga-se para trabalhar.

Para nos livrarmos da pecha de malandros e vagabundos.

Quem é o Che de nossa juventude?

Mas a geração espontânea vem brotando na América Latina.

Vem encravando e colocando os seus enclaves e exclaves.

Só peço a Deus que nenhum astuto intelectualóide se aperceba a tempo

desse fato... porque aí, aí, estaremos mesmo perdidos.

Um brinde a Aristóteles, Lamarck e aos carneiros de melão das Américas!

Antes que um irracionalista venha destruir de novo os nossos

tão sonhados sonhos! Viva! und légomai

enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:03
03/01/2006

Aparelhos Ideológicos do Estado dos Babacalorixás


Para que servem os pais-de- santo? Servem também para fazerem

política. Isso mesmo! Achei um maior agüaceiro todo esse governo

do Lula. Tudo tergiversado e nada muito clean como deveria ser.

Por quê? Porque Lula provavelmente deve ter em sua cabeceira

Maquiavel, Gracián, Mazarin e Talleyrand. De modo que Lula não é

assim tão analfa como a nossa patuléia possa achar. E não venham

vocês achar que eu seja um reacionário, um antiLula etc, porque

estará tudo errado. O que não me conformo é com esses achados

políticos. Ou seja: uive no meio dos lobos. Ou melhor: no meio dos

lobos não tem jeito. Se não tem jeito, vá embora e pronto. Que

a mídia inventou etc. A mídia inventa mesmo, mas o problema é

nos deixar acreditar nas suas invencionices. Venha e esclareça

as acusações. Não comi a vizinha e pronto. Então quero dizer

que esse governo foi pífio. E eu não tenho números não. Tenho

olhos. E vejo. Não me venham com planilhas inócuas. Portanto,

para mim foi muito frustrante. E posso dizer porque votei no senhor

Lula. E ponto. E passo vergonha dos adversários, que tiram o maior

sarro dessa bizarra figura que vos fala. Mas também não me deixo

influenciar por pai-de-santo. Por quê? Porque o bicho antes de prever,

está determinando o que será. Determinismo políitico. Como assim?

Assim: vai nas AMs e FMs e diz: tal governador será o presidente!

Pronto! Pega a dona de casa e faz a cabeça e a sua previsão bate

como na tômbola de domingo. Vai, meu querido babacalorixá:

me engana que eu gosto! Deixa Althusser saber disso...

Um país que começa com vaticínios de falsários pais-de-santo,

só pode mesmo acabar numa encruzilhada de domingo do inimigo:

com muita pizza, galinhas pretas e muita cachaça nas nossas cabeças...

Pais-de santo são os primeiros santinhos da campanha de 2006...

und légomai...


enviada por wilson luques costa



16/01/2006 19:01
02/01/2006

Princípio da Identificação


Julgo, a meu ver, que há um erro, quando se tenta chamar

A é A de Princípio da Identidade. Penso que seria

muito mais adequado chamá-lo, neste caso, de Princípio

da Identificação. Pois vejamos: com efeito, se chamarmos

(A)1 sujeito e (A)2 predicado, não poderemos

ter identidade, mas sim identificação de (A)2 com (A)1.

(A)2 sendo predicado de (A)1 -- portanto menos

universal que (A)1.


enviada por wilson luques costa



15/01/2006 16:18
ODE: DA VINGANÇA DA VIDA


Agora que o ódio se apoderou

De mim.

Agora que me encontro

Com todas as

Minhas vísceras

Em sobressalto.

Agora que meu ódio

Não cede nem relaxa.

Agora que minha bílis

Sobe à cabeça e escorre esse azedo rastro.

Agora que não tem mais jeito.

Agora que desnudo

A minha hybris,

A minha volúpia e o meu nojo.

Quero estar a sós comigo.

Quero me despir

De toda minha

Misericórdia

Compaixão.

Quero o ódio

Sobre esse colchão

Escarmentado

E a volúpia

Da noite insone.

Quero desferir

O meu amargo nojo,

A minha revolta, o meu fel.

Sim, amigo!

Eu traio a mulher que eu amo!

Eu cuspo no rosto de quem me adula!

As mulheres não deveriam me amar, mas me amam.

Os homens deveriam odiar-me, mas se subjugam.

Os hipócritas não merecem meu indulto, mas eu os

Perdôo.

A nobreza deveria ser posta abaixo da linha da torpeza.

A dignidade deveria esconder-se atrás dos amontoados

Da mentira.

Ó sim!

Abandonemos todos os tipos de sistemas.

As regras.

Métricas.

Rimas.

As aliterações.

Os jogos de sintaxe.

A ordem estabelecida.

Os cânones.

Os hipérbatos.

As antíteses.

Sínteses.

Teses.

Sub-teses.

As figuras de linguagem.

Oh, amigo!

Não me perguntes como deveríamos

Falar. Não me perguntes como deveríamos proceder.

Como deveríamos nos comportar.

Sim,

Abandonemos os bons modos.

Abandonemos as

Finuras...

As imposturas das posturas.

Abandonemos as moralidades

Desgastadas.

O respeito cortês com os nossos inimigos.

Admitamos, amigo!

O mundo não terá salvação.

O que procuramos nos livros e

Enciclopédias?

A mentira do mundo?

Toda a história é um fragmento

Da mentira do mundo.

O que pretendemos agora?

Criar clones do

Fracasso?

Multiplicar as nossas misérias?

Saiba, amigo!

A guerra

Nunca estará ganha.

A batalha nunca estará ganha.

O amor é uma quimera.

O ódio...

Uma inveja coligida.

Oh, amigo!

A lógica há muito

Que se contradisse.

O que é o amor para um cadáver em meio à guerra?

O que é a compaixão para um mutilado das virtudes Bélicas?

Sim, amigo!

Não devemos alimentar mais a esperança.

Sim, amigo!

Eu vou suprimir todo tipo de esperança.

Ficaremos nus

Sem mais nenhuma esperança.

Veremos sim como somos ridículos.

Desajeitados.

Estorvados.

Sem compostura.

Somos obcecados por uma estética

Que não possuímos.

Para que então precisam de mim?

Oh, amigo!

Posso dar sim todo o meu ódio.

Esse meu abjeto desejo de destruição.

Quero destruir os nossos sonhos.

Os nossos desejos...

Não há salvação, amigo.

Não esperemos por uma nova era.

Somos a síntese do nada...

Da destruição...

Do reconhecimento da incapacidade de todo homem.

Esse ser mimético e complacente.

O que desejamos?

O aplauso da posteridade?

Não, amigo!

Nós seremos vaiados.

Seremos apupados

Na arena da Vingança.

Somente um idiota

Poderá aplaudir outro idiota.

Como poderemos sobreviver

Nos séculos dos imbecis que virão?

Não, amigo!

Não virão homens de bem.

Apaguemos esse sonho doentio.

Essa ilusão mórbida.

A posteridade é uma farsa.

O que queremos que falem de nós?

Que fomos uns homens de bem?

Não!

Não fomos os homens de bem.

Que fomos uns sábios?

Não!

Não fomos sábios.

Gênios?

Homens delicados?

Oh, amigo!

Não há homens delicados.

Há pulhas como eu e você.

Pensa que com os nossos escritos salvaremos a

Humanidade?

Não, amigo!

Nossos escritos não salvarão a humanidade.

É por que nos

Julgamos superiores

A nossos contemporâneos?

Sonhamos que

Sobreviveremos no futuro?

Não, amigo.

O futuro não chegará.

Nossas

Obras serão pisoteadas

Pelas traças dos sebos e

Alfarrábios.

Morreremos na mendicância

Solitários e esquecidos.

Os homens do futuro rirão de

Todos nós.

Oh, Amigo!

Talvez eles dirão:

‘Oh, mas que belos idiotas’.

‘Oh, mas que charlatões da obsolescência’.

E em nossos escritos...

E em nossas tolas

Palavras

Soprará o antifogo de prometeu.

Os nossos fígados serão

Debicados pelos corvos do não

Reconhecimento.

Gritaremos em vão

Pelos píncaros do deserto.

Nossos soluços não serão

Ouvidos nem

Pelas belas Valquírias

Apaixonadas pelos nossos cadáveres.

Nossos sangues escorrerão

Pelo rio do arrependimento.

Arderemos nas

Brasas do esquecimento.

Culminaremos no vazio do deserto.

Oh, amigo.

Seremos o superlativo do excremento.

Seremos seres abandonados.

Seres sem simetria.

Nuança.

O nada será o nosso próprio êmulo.

De que jaez seremos

Quando nos olharmos

No espelho da angústia?

Aí então perguntaremos: por que fomos viver de modo exaustivo?

Por que agora permeia o nada junto a nós?

Seremos lastreados pela discórdia

Dos nossos atos.

O infausto nos acolherá.

A opulência do infinito nos

Acobertará.

Seremos os indigentes dos tártaros.

A nossa transcendência

Será o intocável.

Viveremos do alimento

Da paucidade.

Seremos parcimoniosos

Com os nossos atos.

Mas de nada adiantará.

Viveremos da minudência.

Da remissão de nossos atos.

Teremos o parco como

Recompensa.

O ínfimo e o reles serão os nossos melhores amigos.

O nosso suprimento será a fome.

A miséria.

Haverá uma vazante e

Depois o refluxo.

A dor sobressalente.

O eterno será o indissolúvel.

Teremos o pleno insulamento.

A infusão da phisys em nossa

Putrescência.

Teremos que resolver o nosso próprio litígio.

Antes de nos esvairmos nas brumas voláteis.

Teremos que arrostar a lama.

O tédio.

A imensidão.

Seremos açoitados

Pela noite invernal.

Habitaremos
O pórtico da ignorância.

Viveremos enfim sem mim:

A vida.

A quem o ódio se apoderou

De vez e por onde

Sobressaltam

As vísceras da vingança.


sem revisão final.

são paulo/09.07.2003
wilson luques costa



enviada por wilson luques costa



15/01/2006 16:08

O ORGASMO

ela folheava o livro eu já havia gozado o suficiente

ela decantava os seus orgasmos múltiplos e contínuos

eu dizia-lhe que havia sobrevivido todos esses anos e

que estava ali em seus braços por força de uma

catarse compilada naqueles contos ela beijava-me dos

pés à cabeça e não compreendia o lado sombrio

daquelas frases não me reconhecia disse-lhe que o

meu modo catártico é o que me fazia sobreviver que

jamais pagara em todo minha vida um psiquiatra que

tal conto tinha sido uma rusga com Elizete que o da

página 35 um acerto de contas com um imbecil do

apto 35 que o da página 64 não me deixando

prosseguir tacou-me mais um beijo na cara e

sobrelambeu o meu pênis ainda cheio de porra

em seguida perguntou-me se eu já havia escrito um

conto sobre ela sobre a cama emaranhada sobre os

lençóis sujos a minha flacidez não me deixava antever

os perigosos augúrios de deus tântalo depois adormeci

em seus braços mas meu esperma ainda gotejava pela

glande escura e arroxeada misturando-se à implacável

saliva de seu antegozo

wilson luques costa
sampa/17/05/2004

enviada por wilson luques costa



15/01/2006 10:51
O METAFÍSICO


Foi no sinaleiro de pedestres que lhe surgiu aquela dúvida

metafísica. Como harmonizar aquele paradoxo? Ele que tinha

abdicado de toda luminosidade... Agora se encontrava naquele

paradoxo. Não sabia muito bem distinguir a luz das trevas.

Ambas em excesso seriam perniciosas - diziam.

Mas a escuridão absoluta não tinha justificativa.

Vivemos no mundo para brilhar – pensava, contrapondo esse discurso

aos arautos da escuridão. Mas lembrou-se da frase de Goethe...

Parado no canteiro que separava a rua, da artéria principal da

cidade, não percebera que havia ocasionado um congestionamento

inexplicável. Os motoristas enfurecidos vociferavam: chamavam-no

de imbecil, idiota e desgraçado... A cidade agonizava naquele

trânsito caótico. Com a chegada da polícia, foi logo devidamente

detido e algemado.

Na delegacia, ao escrivão, ele tentava explicar a dúvida

sistemática dos paradoxos narcísicos.

Boquiabertos, todos procuravam entender-lhe...

aquele significado...
enviada por wilson luques costa



14/01/2006 12:33

diálogo de torcedor


-cadê
dino-maravilha
(80 gols)?

- morreu!

- cadê
barbosinha
(66 gols)?

- morreu

-cadê
agnelo
( 30 gols)?

- morreu!

-cadê
alvarez
(112 gols)?

- morreu!

-cadê
lima
(17 gols)?

- morreu!

- oh,
quantos
gols!

- oh,
quantas
partidas!


enviada por wilson luques costa



14/01/2006 10:33
DEDICO AO MEU QUERIDO TIO ARMANDO, CORINTIANO FERRENHO.

A menina com a fita no cabelo



Armando ia comprar pipoca com seu Zildo.

Conversavam sobre o majestoso das quatro da tarde.

Seu Zildo era são-paulino, apesar de ter nascido em Minas.

Armando era corintiano ferrenho, e acreditava na vingança alvi-negra.

Mas não desconsiderava o chute potente de Pedro Virgílio Rocha.

Armando orgulhava-se da brasilidade de seu time.

Nem técnico aceitava como estrangeiro.

"Corinthians é raça" - diziam ...

'Raça negra...'

'Amarela...'

'Portenha...'

'Árabe...'

Italiana também...?

- Também...

- Por que não...?

Armando comprava, com seu parco dinheiro, amendoins torrados,
que seus sobrinhos adoravam.

E ainda empinava pipas e arraias...

Uma lâmina afiada escondia-se no rabo da barraca vermelha.

Era empinada com cordonê no estirante.

Um de seus sobrinhos, quase que era levado pelo vento,
quando se distraía.

O mato comia as valetas... as borboletas esvoaçavam pelo quintal...

Libélulas nos entretinham com seu vôo assoberbado...

Eu... olhava as donas de casa fraseando o domingo...

A casa ainda apresentava-se incólume ao tempo...

Naqueles domingos, sequer o meu sonho era soterrado...

E eu ainda amava a menina com a fita no cabelo...


wilson luques costa
sp.02.11.2001

enviada por wilson luques costa



13/01/2006 12:06
Ainda ficou aquele lance

Tua pele

Na minha

Teu odor

Aquela profundidade

Sonhávamos em ir

Muito mais

Longe

Quando o paraíso

Era ali mesmo

Eu sobre o teu corpo

Na tua cama

Na maior

Cama de gato
enviada por wilson luques costa



12/01/2006 12:15
O BEBEDOR DE CONHAQUE

‘tem um aí’...?

fez o gesto com o fura-bolo e o médio, mas logo entendi que era um arizona.

‘obrigado, cição...!’

– assim ele me chamava, maneira intimista e majestosa de chamar o sobrinho...

subiu a rua e foi lá no gérsão...

ficava quieto...

a 51 era a sua euforia e a sua alforria...

de todos debicava um pouco...

mas não era insolente...

tinha a segurança de todos...

às vezes era cobrador da clientela...

chegou a servir doses massivas de conhaque e old eight envelhecidos em tonéis não tão...

dizem que chegou a servir cynar ou coisa parecida a uma cantora famosa no palace... mas foi despedido no mesmo dia, porque quase que consumiu todo o estoque de cerveja...

detestava fofoca ou falar da vida alheia...

às vezes bebia em excesso também...

chegou a ser chacota dos amigos...

foi massagista improvisado do time de futebol de salão do pardal, que não ganhava de ninguém e que tinha um zagueiro perpétuo, logicamente, o dono do time, senhor pardal, excelente torneiro mecânico da redondeza, que pensava ser luizinho...

antes de esparzir éter nas canelas fissuradas dos ‘atletas’, envolvia-o num algodão improvisado e metia-lhe nas duas narinas sacrílegas...

foi gerente de bar, sem registro em carteira, boy e estudou em colégio de moços bem comportados, mas logo foi expulso...

foi também assistente de rufião e amado por algumas mulheres não tão solteiras assim, assim, por assim dizer...

bebeu quase a metade da brahma e quase a outra metade da antarctica, sem falar no estoque de fernet de 1962...

numa noite, só, engoliu três litros e meio de conhaque...

chamavam-lhe de vagabundo, engrupidor, homem improdutivo, um nada na vida...


sampa/04/02/2005
wilson luques costa

enviada por wilson luques costa



12/01/2006 11:53
A função primária da comunicação escrita é, portanto, escravizar e subordinar... (in Derrida)



A ESCRITURA NÃO AUMENTA NEM A SABEDORIA NEM A MEMÓRIA
DOS HOMENS



A oralidade cala na alma do filósofo, mas a escritura não aumenta nem a sabedoria nem a memória dos homens, porque como bem respondeu Tamus ao deus Toth: “mais do que a verdade e, portanto, mais do que a sabedoria, a escritura é capaz de produzir aparência de verdade... porque com a escritura termina o ensinamento, que permanece prerrogativa específica da oralidade”.

Entretanto, é senso comum acreditar no seu contrário.

Com efeito, muito se tem praticado a escritura como forma de conhecimento verdadeiro e, apesar de um certo analfabetismo universal latente, escreve-se com muita freqüência nos dias de hoje na intenção de um verdadeiro saber.

Há uma verdadeira torrente de escritos e escritura, sobretudo neste século que se inicia.

Escrevem-se relatórios; escrevem-se cartas de amor; escrevem-se recomendações de boa conduta; escrevem-se livros e leis à mancheia, só não se escreve aquilo que verdadeiramente se deveria escrever: o conhecimento verdadeiro na alma do filósofo.

A escrita virou assim uma espécie de saber absoluto; um saber impregnado de autoridade, como se no bojo da escrita cavalgasse o possuidor da mais pura verdade; como se na escrita vivesse a plêiade mais intelectualizada detentora de todos os saberes, inclusive o saber verdadeiro do filósofo; mas mal sabem estes supostos sábios da escrita que “o escrito corre o risco de produzir não sábios” – porque a escrita se ressente da falta de um verdadeiro saber, que é proveniente da oralidade.

No seu livro Ecce Homo, publicado em 1888, o filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, já revelava essa consciência: “no meu caso, qualquer gênero de leitura é uma recreação”.

A rigor, o filósofo não buscava a sabedoria em suas leituras, porque já se sabia um genuíno filósofo, quiçá da cepa de Platão. O pai de Zaratustra já sabia que nos livros havia meras opiniões perpetradas por “doxósofos” privados de verdadeiro conhecimento e que a leitura o aliviava por vezes de sua seriedade, por isso não se imiscuía nos livros.

Por produzir uma verdade aparente, todo tipo de escritura produz também um mundo aparente, porém só os verdadeiros sábios devem saber.

Nietzsche relata na sua autobiografia que nas épocas em que trabalhava muito, não se viam livros ao seu redor.

No Gênesis a oralidade criou o mundo: e disse Deus : “Faça-se a luz” e a luz foi feita; prova cabal de que “o discurso oral é vivo e animado”.

Deus, dessa forma, escreveu na alma do universo, talvez como o primeiro filósofo da oralidade; depois vieram os “jardins de Adônis” fixando, nos palimpsestos, pergaminhos e papéis, os escritos: sementes de oito dias, que nada dizem ao verdadeiro filósofo.

Mas Platão (ref. bilbiográfica, conforme obs. anteriores) já avisava: “pois bem, o agricultor inteligente quando semeia as sementes mais preciosas e das quais quer que nasçam frutos não as semeará nos ‘jardins de Adônis’; e, se o fizer, o fará apenas ou prevalentemente por brincadeira e por causa de festa”.

Residiria aí, talvez, as diatribes do prussiano Nietzsche contra os escritos bíblicos? Seria Nietzsche um verdadeiro filósofo platônico? Seria Nietzsche um dialético, ancorado na proa da oralidade? Porque a oralidade faz uso da arte dialética; a oralidade planta e cultiva sementes sérias, porque é muito mais bela, porque nela encontra-se o empenho da seriedade, porque plantadas com sério empenho na alma apta.

Na peça produzida por Eurípedes, O Hipólito, em 428 a.C., Hipólito já censurava ferozmente o pai por preferir a palavra escrita à oral. Hipólito sabia, como Platão, que o que foi falsamente escrito não pode ser desafiado pela verdade do tradicional testemunho oral. Hipólito sabia da beleza e tradição da oralidade.

Embora poeta, Carlos Drummond de Andrade também lutava com as palavras, pensando talvez que as amasse, mas deixava em seus escritos alguns sinais de sua não autenticidade e de sua falta de virilidade. Mesmo como poeta, e não filósofo, Drummond sabia da força da oralidade.

Vê-se isso notadamente nos seus sonetos, que seriam uma espécie de resgate da poética da oralidade grega.

No poema “O lutador”, Drummond afirma: “Na voz, nenhum travo de zanga ou desgosto”. Na voz reside o verdadeiro saber, mas com quem dialogar o poeta?

Restam-lhe então as vãs palavras: É preciso de uma certa forma nomear: “Lutar com palavras parece sem fruto. Não tem carne e sangue”, poder-se-ia, à guisa de complemento, dizer: também não tem alma.

“Porque, caro Drummond, a escritura tem isso de terrível, semelhante, na verdade, à pintura.

De fato, as criaturas da pintura se te apresentam como se fossem vivas, mas, se, perguntas alguma coisa a elas, permanecem mudas, encerradas num silêncio solene; assim também o fazem os discursos. Acreditas que eles falam e pensam eles mesmos alguma coisa, mas se, compreendendo bem, lhes perguntas alguma coisa do que disseram, continuam a repetir uma única e mesma coisa. E, uma vez que um discurso esteja escrito, gira por todas as partes, nas mãos dos que o compreendem e também nas mãos daqueles para quem tem a menor importância, e não sabe a quem deve falar e a quem não deve.
E se o ofendem e, erroneamente, o ultrajam precisa sempre da ajuda do pai, porque não é capaz de se defender e de se ajudar sozinho.” [Sócrates]


“Também isso que disseste é corretíssimo, caro Sócrates!” [Drummond na figura de Fedro]


Por isso, caro Drummond, “prefiro morrer depois desta apologia do que (sic) viver depois de uma defesa de outra espécie.” [Sócrates]


Bibliografia

ALMEIDA, Maria Inês de. Para que serve a escrita? São Paulo, EDUC, 1997.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Literatura Comentada. São Paulo, Nova
Cultural, 1988. (NESTE CASO SERIA MELHOR CITAR O LIVRO EM QUE FOI PUBLICADO O POEMA CITADO EM VEZ DESTA PUBLICAÇÃO, NA PRÓPRIA LITERATURA COMENTADA TEM)

BÍBLIA Sagrada. São Paulo, Paulus, 1990.

HAVELOCK, Eric A. A Musa aprende a escrever. Lisboa, (falta editora), 1996.

JOHNSON, Christopher. Derrida. São Paulo, Unesp, 2001

NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. São Paulo, Martin Claret, 2000.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Lisboa, Guimarães, 1993.

_______. Diálogos. Rio de Janeiro, Edições de Ouro,(falta data de publicação).

REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão [Tradução: Marcelo
Perine]. São Paulo, Loyola, 1997.



Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Programa de Pós-Graduação em Filosofia – Mestrado
Disciplina: Seminários de Pesquisa I
Prof. Dr. Marcelo Perine
Mestrando: Wilson Luques Costa
São Paulo – 2002






enviada por wilson luques costa



11/01/2006 14:03
O PARADOXO DO ZERO
E OS JUÍZOS SINTÉTICOS
A PRIORI DE KANT

Para iniciarmos, cabe uma pergunta, sem a qual e sem
uma resposta, nada será possível:

O que é o Paradoxo do Zero?

Começo afirmando que o Paradoxo do Zero é
um conceito (Begriff) filosófico, que demonstra a
possível contradição que se estabelece, quando da
aplicação da seguinte fórmula, tendo o número zero
como agente e paciente na operação:

A X B = C se e somente se C : B = A

Antes de tudo, é preciso explicar que tal fórmula foi
devidamente derivada. Entretanto, gostaria de estar
apresentando essas derivações, num outro possível
registro. Aí sim, poderei demonstrar passo a passo.


É forçoso afirmar ainda que a palavra na sua acepção
grega (paradoxo) significa inesperado.

Isso nos possibilita, de uma certa maneira, evitar os
tropeços nos áridos e íngremes campos dos conceitos.

Então temos em mente que paradoxo é o inesperado.

Então poderemos, a partir de agora, dizer:

Paradoxo do Zero e/ou Inesperado do Zero.

Claro está que se tomarmos o significado de Paradoxo
como Inesperado, nada disso evitará que
encontremos contradições no caminho.

Depois da conclusão deste pequeno registro,
cada qual poderá aceitar o que melhor lhe aprouver:
1 – Inesperado;
2 – Raro;
3 – Chamativo;
4- Incrível;
5 – Etc

O que não deixará de ser também cabível.

Como não tenho aspiração a colocar verdades
inamovíveis, preferi paradoxo à aporia, outra palavra
oriunda do grego aporia, que pode significar:

Dificuldade;
Problema;
Situação sem saída;
Apuro;
Dificuldade insolúvel;
Problema de onde não se pode sair;
Confrontação sem solução de duas opiniões contrárias.

De modo que o tempo, e só o tempo, poderá determinar
se se trata de um paradoxo ou de uma aporia ou outra
coisa.

Então poderíamos também chamar assim:

O Embaraço do Zero e/ou O Inesperado do Zero.



Como me apraz a sonoridade poética, fico,
momentaneamente, com O Paradoxo do Zero.

O Paradoxo do Zero insere-se no campo da
Filosofia, chamado de Teoria do Conhecimento.

A Teoria do Conhecimento é, na maioria das vezes,
definida como a investigação acerca das condições do
conhecimento verdadeiro.

Eis aqui uma das inúmeras definições:

‘Teoria do Conhecimento é a reflexão
filosófica com o objetivo de investigar as origens, as
possibilidades, os fundamentos, a extensão e o valor do
conhecimento”.

Pode ser chamada de Gnosiologia,
Epistemologia e Crítica do Conhecimento.

Sendo as duas primeiras de origem grega também.

Agora vamos ao objeto de nossos estudos:

O que, na realidade, quer demonstrar o
Paradoxo do Zero?

Resposta: São muitos os campos e as implicações; e um dos mais fundamentais é o que se chama de Juízos Sintéticos a priori de Kant. Tudo isso, por afirmar que se tratam de juízos
universais e necessários.

Ora, se aplicarmos diretamente a fórmula para a operação com o zero, notaremos que a necessidade cede; percebam que necessidade vem do latim: necessarius - que não pode ser cedido; ou num dos conceitos lógicos: não-contradição.

No Paradoxo do Zero, fazemos uma leitura de necessário, mais como não-contradição em Kant.

Do exposto até aqui, poderemos concluir que a fórmula do Paradoxo do Zero, na certa, estabelece uma das várias contradições na aritmética.

A não ser que uma fórmula matemática não seja considerada uma fórmula matemática; mas como, se quando aplicada a alguns números naturais a necessidade não cede?

Estaríamos, então nesse caso, numa outra aporia?

Então nesse caso seria mais necessário recorrermos à filosofia da linguagem.

Que os especialistas me desculpem, mas não digam que eu não pensei uma saída!

Como diz um velho brocardo latino:
Intelligenti pauca et Gloria victis.

Ninguém mandou eu entrar nessa!

Mas não se trata, de minha parte, de mais um Casus belli!


wilson luques costa
São Paulo, 03 de agosto de 2004.
Sem revisão.

enviada por wilson luques costa



11/01/2006 13:34
O IDIOTA DA FAMÍLIA

Quando recebi o e-mail, não acreditei.

Aquela sigla não me parecia algo familiar: PEANCS.

Esforcei-me para compreender o seu significado.

Eu que sou dado aos estudos dos significados/significantes.

Mas logo abaixo vinha: PRIMEIRO ENCONTRO ANUAL DA N.C.S.

Alguns nomes eu reconhecia evidentemente.

Jorge Mariano houvera sido almoxarife.

Fillegotti trabalhado comigo no arquivo de clientes especiais.

Luizão era o que organizava as nossas esbórnias na sete de abril.

Henrique o que pendurava a cerveja no Costa do Sol, enquanto esperávamos para ir dançar gafieira no Paulistano da Glória ou no Som de Cristal.

Haveria pizza e malte.

Será que a Sabrina ainda estaria gostosa?

E a Cidinha?

Porra!

Salve deus onã!

Porra!

Vou mesmo nessa!

Eu não tinha os dez contos para a consumação mínima...

Mas o chopp viria de graça...

Se a Cidinha desse sopa, dessa vez, iríamos parar lá no Cartola...

Depois...

Depois não sei...

O futuro a deus pertence...

Eu, um inveterado ateu...

Agora... depositava todas as minhas fichas na Cidinha...

Arrumei as dez pratas de chinelo...

Guardei bem escondidinha entre a e ......

Há dias que eu vinha usando uma alpercata para aliviar as dores de um calo inopinado...

Mas...

Meti também um jeans, uma camiseta índigo e um blaser do brechó da Isaura.

Desci a rua azafamado...

Por lá chegando, escondi-me atrás de uma pilastra.

Observei...

Por detrás da mureta, que me servia como anteparo à minha timidez...

Um Meriva estacionando...

Logo em seguida...

Um Airtrek 4x4 16v5p.

Fiquei por lá mais um pouco...

Agora era um Boxter Tiptronic (2.7)(conversível)...

Resolvi chegar...

À porta, o meu velho companheiro de tia Olga...

Mestre Ivan, que chamávamos de mestre Ivaninov.

Cumprimentou-me e disse-me para adentrar.

Meio estorvado e meio ressabiado entrei.

O velho punk...

Ostentando um terno indefectível...

Perguntava-me dos negócios...

Se havia atingido a meta naquele ano...

Perguntava-me em qual multinacional eu me encontrava...

Em vão, tentava explicar-lhe que não se tratava daquilo e que...

Mas inconseqüentemente apresentava-me à nova turma...

Dizia-me de Alberto...

Hoje superintendente de uma estatal...

O mais jovem conselheiro do clube...

De Chinaglia...

Afoito, comigo, eu repetia a primeira, a segunda e a terceira declinações...

Do latim todas as cinco.. mais os pronomes...

Tentava entender o significado ontológico da palavra ousia...

Da derivação dos tempos...

Compreender o infectum e o aoristo...

Estabelecer a derradeira compreensão de um supino, enquanto mastigava a pizza do outro lado, a fim de proteger um molar cariado.

A cada garfada esfaimada na Margherita, eu refazia as minhas reconsiderações:

Todos os meus amigos...

Bastantes...

Haviam mudado...

Eu...

Ali...

Continuava o mesmo...

Sendo o mais risível...

Ainda...

Dos idiotas da família...


Wilson Luques Costa
São Paulo/03/07/2004


enviada por wilson luques costa



11/01/2006 13:25

De repente dei-me
Conta de que os vermes
Já habitavam o meu corpo

A insônia apoderara-se de mim

As minhas artérias já eram
O habitat natural das alergias

Eu um monstro sistêmico
Morria sem perceber

Já não tinha domínio sobre o meu corpo

Nas madrugadas tempestuosas
O meu corpo ardia
Como sói pode arder
Um corpo que se encontra
Nas profundezas do inferno

A morte ou a senectute
Apresentava-me a sua credencial

E eu pensava comigo:
Amanhã vai melhorar!

Por que, ó meu Deus, deixamos sempre para amanhã?

Exclamei comigo, enquanto ouvia silvos profundos que
Perfuravam toda madrugada.

Só quem habita a interminável madrugada com as suas
Dores
É que tem a precisa dimensão do infinito
Do prurido da noite.

Na verdade
Um verme é de uma irracionalidade atroz.
Mundana...
Pensei...

O que esses ácaros espasmódicos querem comigo?
Por que não vão procurar outros vermes menos
Abjetos?

Na noite
Eu ponderava os meus dias
Fazia uma retrocessão do tempo
E eu via que a rarefação do tempo
Era mais nítida
Quando encarada de um horizonte a outro

Seria como deslocar o foco de uma luneta
O tempo
Quando se aproxima a morte

É mais fluido e mais diluído

É inversamente proporcional

A um sonho de menino
Que se esparrama na relva
Em busca de um futuro irrealizável

Agora era preciso conviver
Com todas as formas
De impurezas

Qualquer depuração
Seria inócua e inodora

Eu tinha
De uma certa maneira
Que me adaptar
Com as necroses
Da carne e do tempo

A cama nas madrugadas
Não era mais
A minha companheira

Nem o travesseiro
O meu consolo

O mundo tinha os ouvidos moucos
Ao meu apelo

Agora eu sabia de toda a charlatanice da medicina
Os médicos impotentes
Diante da necrose do tempo e da carne
Só se cura o curável
Método pleonástico
De prescrever dietas
A quem já não precisa

Já o incurável
Pertence aos vermes
E à madrugada insone

Afora tudo isso
Também não me apetecia mais
A vã busca da glória

A glória...

Um abismo
Que chama
Outro abismo

Abysmus abysmum invocat
Bela frase de Davi
Que ressoava
Em meus ouvidos

É verdade
Uma desgraça
Nunca vem só

E quando eu recontava
Os meus feitos

Ouvi um escravo
Dizer-me

-Cave ne cadas

A madrugada
Ia assombrando-me
A cada momento em seu labirinto

O tempo
Se invertia
Nos ponteiros
Do relógio lento

O tempo
Não corria

Parecia que a eternidade
Tinha estancado
Em minhas feridas

Anima e corpo
Não se dissociavam

Na dor
Só os relógios
Pontuando

E pontificando

Na algia da noite insone

Todo o meu corpo
Era entrelaçado
Pelos rudimentos
Da madrugada

O pesadelo era tamanho
Jamais esperei uma manhã
Tão desejada de flores
Com seu brilho

O céu
Azul imaculado

(éter- celeste),

O amolador de facas
Assoviando
Pelas avenidas

As mulheres na feira
Com seus filhos
Dependurados
Sobre os seus ombros

O pão quente na padaria

A água fervendo

Ó dias de glória e de infortúnio!

Ó dias que demarcaram a minha felicidade!

Doxa vanus!

Beatitude singular!

A madrugada insone
Colocava-me frente a frente
Com o incurável


Não o vazio

Porque
Entre
O incurável e o vazio
Não há
Similaridade


Antes o vazio pleno
Se se apoderasse de mim

Mas não

Estava eu ali
Entregue às vestes
Do tempo

Impossível suportar
Um corpo que declina
Quando somos tomados
Por outros vermes indigestos


Esquecemos
Até os nossos
Mais feéricos
Inimigos

Toda forma de moralidade
É posta ao chão

Todo desejo de vingança

Toda ausência

Toda calma

Toda ofensa

Toda insignificância


Toda guerra

Toda paz....

Rancores e prudência

Todo fingimento refletido

Toda insolência caracterizada

Todo segredo de importância

Toda euforia ou exaltação

Todo cargo honorífico

Toda honra

Todas as ações boas ou más

Toda melancolia, tristeza...


Nem seduz mais
O passado

Também todo corpo é jogado
Ao chão sem nenhum
Consentimento...

Ó não...
Nem em meus vermes
Eu podia confiar!

Minhas repugnâncias
Não mais tinham objetivo

Meu corpo medíocre
Era o hospedeiro
De uma singular febre de feno

Meu corpo
Detalhadamente
Escolhido

Meu corpo mundano
Que sonhara um dia
Ser cósmico
Com a imensidão

Minha pele sensível
A todos os achaques
Do mundo

Esse meu corpo
Que suportara
As maiores ofensas
Maledicências

Agora
Prostrava-se
E inclinava-se
Às urticárias do mundo

Eu que julgava
Saber tudo
Ouvir tudo
Deduzir tudo...


Por um certo momento
Tentei encará-la de perto
Mas me desaproximei


Tentei em vão
Mostrar-me
De difícil trato

Demonstrar a minha
Não alegria

O meu excessivo
Abatimento

Mas não havia perdão!

Procurei fazer
Um ar inóspito
Carrancudo e vazio...

Soergui os meus olhos e a minha cabeça

Posicionei-me de maneira austera
Circunspecta, altiva...

’O que me espanta é tornar-me teu habitat!’ – proclamei.

‘Isso é de uma irracionalidade atroz’!

Tendo ao fundo
A nona sinfonia como mote

Uma voz estranha me dizia’:

‘AB UNO DISCE OMNES
ACTA EST FABULA’

Virei-me de bruço e

Comigo

Adormeci!


Hodie mihi, cras tibi!

Sic nomizo...

FIM! REVISAR!

enviada por wilson luques costa



10/01/2006 16:19

O COLÓQUIO DE SILS-MARIA



Um dos senhores poderia nos dizer do que se trata esse objeto que Subjaz nesse distinto leito?

Oh, meus caros senhores!

Saibam que não vim aqui para tais reflexões.

Na verdade, posso afirmar com total segurança que foi a minha Querida Xantipa que me exortou a um caminhar peripatético, já que Me encontro tendo dores terríveis em meu abdome, em face de uma Certa argia que vem se acometendo sobre mim nesses últimos dias.

Mas posso, contudo, quase que afirmar que vejo nitidamente a areté.

Isso é tão evidente para mim como as estrelas e a moral de Kant.


Oh, meu caro amigo!

Vê se pára com essas insinuações à minha pessoa, mesmo sabendo-as Como um certo encômio .

Tenho evitado ultimamente discorrer sobre qualquer possibilidade.

Há dias que não pratico o onanismo, e isso tem-me perturbado Deveras o meu raciocínio.

Os senhores sabiam que o esperma acumulado por mais de três dias Cria uma disfunção neural, que nos incapacita para a total Reflexão?

Por isso abstenho-me de qualquer doxa
Acerca do que quer que seja.


Bem, sendo dessa forma, eu não veria outra possibilidade, senão a De chamarmos de imediato um iatrós de Atenas, porquanto vejo que a Doença se abate de tal forma nessa casa, que seria quase que Impossível seguirmos com esse simpósio secular.

Vejo que Parmênides traz em suas mãos alguns fragmentos e que Apesar de sua imobilidade, parece-me que teria muito a nos dizer.

Sabemos que não foi fácil a travessia do rio de Heráclito. Sabemos Também que no Estígio quase soçobraste, Mestre Parmênides.

É verdade?

-----------------!?

Diga-nos também se há uma verdade, Mestre Descartes?


Primeiramente, considero haver em nós

Certas noções primitivas, as quais são como

Originais, sob cujo padrão formamos todos

Os nossos outros conhecimentos.


Bem, vejo que fez bem a mestre Descartes as águas temperadas da Holanda.

Mas não consegui até agora compreender a vossa explicação acerca Do objeto que subjaz à nossa frente.


Acho que, por Zeus!


Mestre Bacon!


Tu não deverias falar assim de mestre Descartes.


O senhor sabe muito bem que a sua vida pregressa não foi um Órganon perfeito, caríssimo Bacon.

Pesam suspeitas sobre o senhor,
Caríssimo Bacon:
De uma tal malversação.

Sem falarmos que Shakespeare
Anda muito triste com o senhor.

Ora!

Ora!

Deixem Bacon em paz.

Bem sabemos que Aristóteles já tinha
Desenvolvido o seu órganon, mas não devemos desconsiderar o belo Esforço de Bacon em nos possibilitar esse acepipe maravilhoso.


Oh, mestre Bachelard!
Pare de pensar
Somente em guloseimas.

Vê se a chama de tua vela
Ilumina um pouco esse excêntrico companheiro.

Deixem Bachelard em paz
Com as suas velas poéticas.

Há muito que esse apagão reflexivo necessita de uma luminosidade.

Mas o que eu quero nessa casa
É uma certa
Ordem, um certo progresso.

Os senhores estão
Numa anomia inominável.


E isso é terrível!
Terrível!
Sem um Estado estético-religioso-moral, afundaremos na mais Absurda das tragédias.

Você
Decididamente
É um idiota, Comte.

Não me venha furtar
Um conceito
Fundado
Por mim, há séculos.
Sim, eu lhe vomito todas as minhas dores oculares, bem como toda a Minha cefaléia.

Deixe-me vomitar primeiro:

Gluhhhhhhhh!!!!!

Por favor
Fichte
Desligue esse idiota do Wagner.

Gluhhhhhhhhhhh!!!!!


Antes, porém, gostaria
De entoar um
Mantra zaratustreano
Em uníssono
Com todos vocês:


Ó sentimentais hipócritas, ó mentirosos....
Todos!
Todos!
Ó sentimentais hipócritas, ó mentirosos....
Mais uma vez...
Ó sentimentais hipócritas, ó mentirosos....
De novo...
Ó sentimentais hipócritas, ó mentirosos.....

Mentiroso é você, seu filho da P.....

O senhor desencadeou
Com o seu discurso
Um estado de total barbárie!

Silêncio!

Silêncio!

Pai nosso
Que estais no céu...

Fé é acreditar
Naquilo que não se vê....

Silêncio!

Silêncio!

Porra!

Quem roubou
O meu chambre Rosa?

A sua mulher
Não presta, Sócrates.

Xantipa é uma
Megera indomada!

Mas eu amo Xantipa
Como amo a cicuta.

Xantipa é
O meu cálice doce
De verdade!

E você Platão
O que pensa sobre tudo isso?

Sabe, eu estou aqui no mundo das idéias...

Estou eu e Spina...

É pena que o baseado já está na guimba...

Eu e Spina estamos numa ‘nice’...

Eu só vejo a phyisis etérea...

Uranos ...

O superagatós....

O superkalós....

É o nada que existe...


Idéias....

Idéias....

Idéias...

Mil idéias...


Derrida
Passa o seu fármacon
Por favor!

Valeu Derri...

Valeu mesmo....

Estou com o ego inflado demais....

Porra!

Spina é supergente....

Um cara panta...

Um cara nosso mesmo...

Porra!

Eu e o velho Spina no mesmo odós...

Vamos seguir juntos nessa trilha....


Vamos pegar o nosso ippó e ter uma boa kairós e subir até uranos...


Quero estar com a psique a mil...

Sabe o que vocês vão encontrar?

Vão encontrar o vazio!

O vazio!

É isso que vocês vão encontrar!

O vazio!

Mas o que eu quero mesmo é o abismo...

Eu quero beber todo o etna....

Quero me afogar nas suas crateras...

O que vocês vão ver é a dor....

Ihhh!!!!!

Schopp...

Schopp bebeu de novo...


Foi sair com aquela mulherzinha de meia esquina, né mestre Schopp?

Vê se dá um sorriso, mestre Schopp!

Por que tanto azedume?

Só a dor é necessária!

Só a dor é necessária!

Ah, é?

Então me dê esse pinto murcho
Do caralho que eu vou dar uma bela Apertada com o meu martelo de Marx, depois irei decepá-lo com a minha foice de Lênin....

Oh, Sade!
Não faz assim com mestre Schopp....

Por que você está tão sádico hoje, mestre Sade?

Até parece que ainda não recebeu um míssil no rabo!


Rssssssssss!!!!!!


Vejam
Eu acho que essa casa extrapolou
Todos os limites da harmonia.

Se eu fizer a soma dos catetos
Na certa não terei
A hipotenusa necessária...

Ah! Pita....


Dá um tempo para a minha cabeça com esses aritmós malucos....

E ademais...

Por que mestre Pita só sabe contar até sete?

Por que fugiste do liceu tão cedo, mestre Pita?

Só faltava essa!

Chamem Levis Strauss!

Eu, como o pai da filosofia, deveria ao menos ter iniciado esse Colóquio....

Mas vejo que não há éthos nessa casa...

Isso me causa uma apatéia incomensurável que dá vontade de ir Embora...

Não...

Não vá, meu querido Tales....

Vamos criar um
Diálogo comunicacional...

Uma sociedade diferente....

Com nómos próprio....

A hibris estabeleceu-se
De tal forma nessa casa
Que é quase impossível estabelecermos uma sociedade igualitária....

A mais-valia do discurso reproduz-se em progressão geométrica Nessa casa...


Todo homem é bom...

Devemos acreditar na natureza do bom selvagem....

Ahhhh!!!

Ahhhhh!!!

Você de novo, Rousseua...

Ahhh!!!!

Ahhhhhhh!!!!

Por que está rindo, Voltaire?

Por que esse olhar sardônico sobre a vida?

Aliás , aqui o que é?

Um colóquio filosófico ou uma verdadeira anarquia?

Você também Bakhunin?

Bebeu de novo?

Caralho !

Quem jogou essa maçã na minha cabeça?

Foi o cínico do Newton!

Cínico, não!

Não tire a alcunha de Diógenes!

Você comerá essa maçã no inferno, Dante!

Mas isso aqui está
Uma bagunça mesmo!

Cioran,

E o senhor

Um romeno renegado,

O que teria a nos dizer sobre esse objeto

Que subjaz à nossa frente?


Oh, meu camarada!
Saiba que o exercício filosófico
Para mim não é fecundo...

Mas o senhor tem se imiscuído
Na filosofia nesses últimos anos...

Como pode ser tão paradoxal em seu pensamento?


Saiba, meu caro Adorno...
Afastei-me da filosofia...
No momento em que descobri em Kant...
Os grandes sistemas são apenas Tautologias....

Oh, mestre Cioran...
Vejo que teve insônias terríveis nessa noite...


Sim, não conseguia dormir...
Em face das atribuladas
E fracassadas tentativas
De ereção de Nietzsche...

Nietzsche
Efetivamente não é um
Super-homem...

Salomé ficou muito macambúzia
Com a flacidez fálica de Nietzsche...

E ademais...

Descobriu-se que Nietzsche nunca fora um anti-semita!

Não nos diga essa heresia, mestre Cioran...

Digo...

Não obstante abominar a verdade....

Lou notou-lhe a ausência da pele prepúcia...


Não nos diga mais essa verdade,
Mestre Cioran..

Esse é o fracasso de toda a Alemanha!

Isso abalará toda
A Doutrina da Ciência....

Não pode em absoluto ser verdade....

Por Daímon.....

Por Daímon....

Isso lhe denota um semitismo ardente, então?

Mas como,
Mestre Cioran?

Isso é uma verdadeira
Bomba orgástica!


Sim!

Sim!

Nietzsche não era anti-semita?

Tampouco, anticristão?

De maneira alguma...

O que era Nietzsche, em verdade, mestre Cioran?

Nietsche era um poeta...

Como um poeta?

Nietzsche queria um míssil nos colhões!

Ahh!!!!

Não me venha Sade
Atrapalhar a nossa conversa...

Vê se limpa esse cu fedorento
E cheio de porra....

Vê se pára de lamber
Essa porra azeda de Kant....


Mas voltando, mestre Cioran....

Mas pelo que se sabe
Mestre Cioran...

Nietzsche nunca
Freqüentou panelas e nem foi ensaísta
De gazelas...

Desculpe.... gazetas....

Não...

Não falo dessa vulgaridade...

E ademais não venham falar mal dos poetas...

Os poetas são figuras-símbolo de uma nação...

Mas se diz a boca pequena que os poetas vistos de pertos
Seriam uns verdadeiros homúnculos...


É verdade,
Mestre Cioran?

Na verdade
Alguns poetas
São extremamente narcísicos
E por terem algumas disfunções regressivas,
Tornam-se pessoas lúdicas e até mesmo nefastas....

Então a imagem que fazemos dos poetas não seria verdadeira?

Em absoluto, meu caro Schelling....

Poucos são os poetas verdadeiros....

Como, mestre Cioran?

Na realidade, meu caro e poeta Schelling, a poesia é a mais nova Forma
De se fazer política...

Continuo não entendendo, mestre Cioran?

Na verdade, o poeta é um phaulôs.....

Continuo não entendendo, mestre Cioran....

Os poetas em sua grande maioria
São o que há de mais nefasto
Sobre a terra...

Por que o senhor é tão atrabiliáro,
Mestre Cioran?

Não se trata de atrabiliarismo...

Na verdade
Meu caro poeta
Sou mais melífluo
Que um par de favos
Das melhores melitas...


Continue, mestre Cioran!


Eu gostaria de parar,
Porque não gostaria
De estar falando
Do pior espécime da sociedade...

Nossa
Mestre Cioran !

Sim
Os poetas só escrevem para poetas....

Continuo não entendendo...

Nada é natural no poeta...

Como?

O poeta aprende algumas palavras
Faz algumas leituras
E depois começa inventar...

Desculpe-me
Mestre Cioran
Mas não posso concordar
Com tal heresia!


Se quiser
Caro poeta
Posso encerrar por aqui....

Não
Mestre Cioran...

Continue...

Continue...

Por favor....

Os poetas são uma corja mancomunada com o poder
E com a imprensa....

De novo
Mestre Cioran?

Normalmente trabalham na imprensa ou têm amigos na imprensa
E têm por isso acesso às editoras e jornais...


Mas eles defendem o povo...

Você é idiota
Schelling?

Como não defendem?
Na verdade eles detestam o povo, a periferia....

Ah, mestre Cioran!

Você acha que eles adoram a plebe?

Seja mais complacente
Mestre.....

Eles são os formadores de orelhas....

É orelhada para todo que é canto...

Mas procure um verdadeiro poeta...e não irá encontrar....

Desculpe, Mestre Cioran...

Posso continuar?

Claro que sim!

A maioria deles são puxa-sacos sem talento...
Se aproximam de toda forma de poder...
São oriundos de universidades...ou compartilham da regra Abjeta...em seus escritos há mais currículo insosso do que a Própria palavra...são apaniguados do poder....são os vampiros do Sangue do governo....usurpam as suas contas...através de bolsas Etc...viajam para o exterior para mostrar uma certa finesse...
São a coisa mais reles que se produziu.....os grandes poetas já Estão mortos...ou estão mortos na sua alma...os grandes poetas Vivem escondidos...seu lugar é a indiferença...seu louro a Inglória...um poeta vivo é um escárnio da natureza....

Nossa
Mestre Cioran
Suas palavras têm veneno!


Não, meu dileto poeta, há veneno na taça da maldade desses falsos Poetas-eruditos....

São criançolas que tentam falar de filosofia...

Mas nunca nos consolam....

Sua Fala é evasiva...

Seus discursos caem no sumidouro...

Porque não têm conteúdo...

São narcisos inconsoláveis....

Não é a poesia que os une num universal, mas sim uma certa Nosomania ou outros vícios com interesses gratuitos.....

Nada....

Nada....

Nada tem valor nesse mundo....


Nossa
Mestre Schopp deve ter bebido de novo....

Como ?

Não compreendemos!

Há que sempre retornar a manhã?

Nunca findará o poder terrestre?

Oh, meu jovem Ananias Novalis!

Parece-me que ainda reténs em teu honrado coração a esperança!

Canta-nos mais uma canção, grande poeta!

Agora sei quando será a última manhã...

Quando a luz não mais afugentar
A noite
E o amor....

Mas você é um grande imbecil, Novalis!


Faltam-lhe a capacidade e o discernimento de um amanhã que não Terá chegada...

Só a dor é real...

Só a dor é real.....

Quem é esse
Que adentra o recinto
E temos a grande honra de receber?

A pragmática de Cassirer, com o Entwicklung de Brentano, Possibilitará a efetivação do modus em detrimento do Gliderung da Sofística estamental de Freiburg...pois o erro do kantismo....

Dê-me a palavra!

Pois posto isso:

A saber:

Caro Jüngen Habermas...

Liberdade e Deus...

Coisa última...

O eu como absoluto...

Não eu...

O eu é o intuído por si próprio...

Como ação....

O pensamento vem depois....

Sujeitos ativos.....

Objetos de ação.....

Determinismo racial....

Ayia.....

Culmina no sujeito-objeto cognoscente...

Pois em Freiburg...

Quem é esse idiota que está falando
O meu nome em vão?

Como mestre Hegel?

Trata-se de um pós-Doc de Cisplatinuquim!

Mande esse imbecil para fora agora...

Devolva à sua senzala provinciana....

Mas é uma eminente figura que sabe discorrer com maestria...

E mande também esses servos que lhe acompanham...

Oh, cambada de fariseus....

Como podem saber de meu sistema?

Se meu sistema é dialético
Como poderá adentrar figura tão tacanha?!

Rasgue esse título de merda.....

Glghhhhhhh!!!!

E por que não fala bem a sua língua...

Hein,
Reles papagaio?

Por que gosta
De mimetizar
A língua alheia?

Não lhe deram
Uma glotta bem afinada, não?

Tu me pareces mais
Um gigante
Psíttacus....

Ahhhhhhhh!!!!

Onde aprendeste
A assoviar assim?

Saia agora
Seu energúmeno!

Fora com o seu discurso....


Dê-lhe a cova devida
Meu querido Bataille...

Penso, logo existo

Existo logo, penso

Penso que não existo

Que não existo penso

Penso

Penso

Penso

Penso que penso

Pensaria

Mas não penso mais
Mas se eu pensasse
O que seria do pensamento

Penso não penso
Penso que pensopensopenso


Pelo visto
Mestre Descartes enlouqueceu de vez...

Não seja tão irracional
Com mestre Descartes....

Mestre Descartes deve separar tudo de forma bem alva....

Não nos torne difícil o pensamento
Mestre Descartes....

Cogito

Ergo

Sum


Sumergo cogito

Ergosumcogito

Da-sein

Dada-sein


Olá H....

Por que mestre angústia...

Desculpe-me...

Mestre Heidegger está tão feliz hoje?

Pelo jeito o casal vem retornando da Floresta Negra....

E o lobo mau
Não comeu ninguém?

Ou comeu?

H.... !

A senhora
Poderia nos falar
Acerca desse objeto que subjaz....

Bem...

Ele tem sete centímetros e meio quando ereto.....


Não é isso que lhe pergunto, sua idiota !

Estou falando do processo fenomenológico...

Do phainestai...

Bem...

Para falar a verdade...

Eu não acho assim tão universal...

Já vi universalidades maiores...

Por exemplo....

Demóstenes tem um tratamento oral elevadíssimo...

Sem totalitarismos...

Por favor...

Isso aqui está uma bagunça....


Nossa!

Nem parece um colóquio universal!

Retornemos à pura filosofia!

A questão de potência-ato
Será explicitada por Lukács...

Abstenho-me
Senhor
De qualquer explicitação...

Só falarei na frente de meu
Querido Walter Benjamin...

A dialética negativa não nos permite...

Eu posso explicar o processo de
Ato-potência...

Então com a palavra Merlau- Ponty...


Bem...
Bem...
Sabe....

Bela explicação de Merlau....

Agora...

Por favor...

Popper....

Bem....

Mas....

Se...



Parabéns...
Popper...

Agora com a palavra...
Barthes....

O discurso...
Todo discurso é tirano......

Passemos a palavra para Althusser...
Bem...
Sistemas ideológicos...
Os aparelhos...

Muito bem!

Agora Meyer...

Quem?

Meyer...

Quem?

Meyer, caralho!

Meyer...porra....

Vocês não conhecem o Meyer?

Prazer!

Muito prazer!


Proudhon!
Proudhon!

Na verdade
Não se trata de destruir o Estado....

Hobbes...

O Leviatã....

Feuerbach...

Muito bem!

Discordo!

Protesto!

Kelsen!

Lucrécio!

Luhmann!

Maimônides!

O próximo!

Hume!

Górgias!

Viva!
Ficino!

Pelo que noto
Senhores
Meus companheiros
Acho que darei por encerrado
Esse simpósio milenar...

Os senhores filósofos
Foram incapazes
De nos falar
Sobre o objeto que
Subjaz à nossa frente...


Claro que podemos!


Evidente que sim !


Eu tentei explicitar de todas as formas...


Silêncio, senhores!


Silêncio!

Lamento informar mas o
Colóquio de Sils-Maria está encerrado!

Ahhhhhhhhhh!!!!!

Ohhhhhhhhhh!!!!!

Uhhhhhhhh!!!!!!!!


A verdade...


Senhores...

A verdade...

A verdade
É o que subjaz!

Ohhhhh!

Ohhhhhh!

Não pode ser!

Sim!

Sim!

Meus caríssimos filósofos!

Silêncio!


Silêncio!


Nós
Os filósofos
Assassinamos a verdade!


Oh!


Uh!


A verdade...
Caros companheiros e metafísicos


A verdade....
Já cheira à necrose!


Oh!!!!!


Uhhhhh!!!!


Sim!


Sim!!



Enterremos
De vez
A verdade !

Dez mil mentiras
Valem mais que uma VERDADE!

Viva os mentirosos!


Viva!

Viva os homens dotados da mitomania!

Viva!

A mentira precisa
De mil testemunhas!

Sim!

Sim!


Somos os arautos da mentira!
A única verdadeira verdade é a mentira!
O engodo!

Oh!!!!
Uh!!!!
Oh!!!!
Uh!!!


E o que fomos
Na verdade
Nesses últimos séculos?

Sim !

Darei
Oh mentirosos!
Um último brinde à mentira!


Oh, mentira!
Filha bastarda
Da deusa falácia
E do deus sofisma!

Ó eternos deuses
Da falsidade !
Vós que sois também
Aa única verdade
Oh,
Salvai-nos!
Salvai-nos!

A nós,
Os verdadeiros e únicos mentirosos!

Salvai-nos!

Salvai-nos!



wilson luques costa
sampa/ 24/11/2003
O COLÓQUIO DE SILS-MARIA - TEATRO
enviada por wilson luques costa



10/01/2006 16:05




O CARDEAL – UM OLHAR EXÓTICO

Seria necessário perpetrar uma máxima antes de discorrer sobre algumas sutilezas cardinalícias: “Se queres conhecer a tua igreja, não perguntes a um cardeal”. Com efeito, um cardeal é antes um áulico despudorado do que um inocente prelado. No livro “O HOMEM RENASCENTISTA” de Eugênio Garin, no texto de Massimo Firpo: “O CARDEAL” ; vamos encontrar as surpreendentes, remissivas e reiteradas palavras como: ação, carreira, atrair energias, canais de promoção social, talento, ambição. Palavras, como se vê claramente no livro e, às vezes, de forma subjacente, nada eclesiásticas. Na verdade, vê-se, isto sim, um jogo de interesses e de poder, uma via de acesso aos píncaros da glória e da fortuna e, por que não dizer, da licenciosidade.


O exemplo de Alexandre VI, que foi Papa de 1492 a 1503 é significativo: Rodrigo Bórgia ou Alexandre VI, que ascendeu na carreira graças ao apoio de seu tio, o então papa Calisto III, foi um homem que, não obstante o apoio à Universidade de Roma, e de ter em seu currículo “algumas qualidades positivas apontadas por apologistas modernos, como “energia e habilidade administrativas, decoro doutrinário e religioso”, não se furtou de se conceber a própria benesse - ao nomear cardeal um dos seus “inúmeros filhos ilegítimos, o famigerado duque Valentino” e, não satisfeito com tal arroubo, nomeou ainda muito mais : “sobrinhos, primos e descendentes” - empanturrando o sacro colégio “de personagens capazes de comprar o galero com “dinheiro sonante.”

No sacro colégio, encontramos, ao que parece, menos uma ínclita Cúria romana do que um lupanar festivo, frequentado, muitas vezes, por caricatos e indiscretos enteados nepotistas.



O poeta italiano renascentista, Lodovico Ariosto, numa de suas sátiras, já afirmava “os sobrinhos e os parentes que são muitos, têm de beber primeiro, pois que o mais belo/ de todos os ajudaram a vestir mantos” - sátiras, em versos, que chegam a beirar os endecassílabos e alexandrinos, das quais o poeta atribuía-se, para, a rigor, estilizar e dar uma certa ‘finesse’ a duas cortesãs que no colégio hospedavam-se: a infâmia e a decadência.

Tudo isto, note-se bem, numa Itália Renascentista, que se confundia entre roubos, extorsões e jogos de máscaras, e não vai aí nenhuma alusão ao jogo de máscara social que se praticava até então. Itália Renascentista, que teve uma Florença de Maquiavel, Michelangelo, Dante, e que teve, apesar de seus mecenatos, uma família Medici, que, além de produzir usura, produziu sob o seu rígido tacão dois papas: Leão X e Clemente VII tidos ambos em boas contas, naturalmente não nas boas contas bancárias que os Medici tão bem administravam.


Leão X exerceu o papado de 1513 a 1521, e chamava-se Giovanni de Medici, no batismo, e foi segundo filho de Lorenzo, o Magnífico, não magnífico pela sua magnificência, mas por ser destituído de sangue principesco.

De Leão X dizia-se que era um homem exuberante, culto e maleável e que o seu “prazer “ no Papado era óbvio; também se asseverava amiúde que Leão X satisfazia o seu gosto pela caça e os banquetes, deleitando-se em oferecer a “hospitalidade de sua corte a homens de letras, intelectuais e agentes que aumentavam sua coleção de manuscritos clássicos” - extremamente exuberante, culto e maleável, Giovanni era “dotado de uma intuição natural para combinar esses papéis com charme e astúcia.” Conquanto tenha sido um tanto quanto pródigo em suas relações, a morte, no entanto, não lhe foi condescendente e em outubro de 1521, Leão X veio a morrer deixando um ” mar de dívidas”, que como insinuou mestre Pasquino: “Cristo seria vendido para pagar as despesas”.

Embora tenha “dado maior impulso à construção da nova S. Pedro” e acelerado o processo pelo qual Roma estava sendo remodelada para tornar-se uma capital do Renascimento, mesmo assim , e só tendo mesmo as retinas mitigadas pela inocência para vermos em Leão X ‘Pedro edificando a pedra.’

Pedra que deveria, ao menos, ser edificada pelo outro Medici, Giulio de Medici, que “foi eleito papa após um dos mais renhidos de todos os conclaves e adotou o nome de Clemente para significar reconciliação com os seus inimigos”. Clemente VII, que exerceu o seu Papado de 1523 a 1534, foi filho ilegítimo de Giuliano di Pietro. Clemente VII “foi um dos mais formosos homens eleito algum dia papa” – muitos se regozijam até hoje de Clemente VII por ter herdado alguns adjetivos ou atavios, que iam além da Banca Florentina.



Clemente VII, como se dizia, tinha fina estirpe e era dado à cultura; foi um dos “melhores músicos da Europa” e esforçou-se para reviver as artes mostrando-se um mecenas esclarecido “ao patrocinar Rafael, Celini, Sebastiano del Piombo e Michelangelo” - a Clemente VII, atribuem-lhe um não sei o quê de simplicidade, porquanto mesmo os seus mais ferozes inimigos foram incapazes de sugerir qualquer outra coisa “a não ser uma vida moral impecável.” A não ser, talvez, Henrique VIII que ao exigir “a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão ” fez precipitar no monarca inglês o incipiente rompimento com Roma, dando, assim, os fundamentos ou mesmo o assentamento de uma pedra fundamental que iria erigir a mais recente dissidência da igreja católica, a Igreja Anglicana. Porém, com isso, e envolto, por conseguinte, em sua megalomania, Henrique VIII não chega a reconhecer de forma cabal as virtudes de Clemente VII que era, como alguns sustentavam, um ser movido pela excessiva caridade, o que o tornava, desta forma, célebre “como um indivíduo liberalmente esmoler”, exceto, obviamente, com alguns desafetos, como por exemplo, a já citada Igreja Anglicana.

Evidentemente que ninguém pode negar que o renascimento tenha sido, talvez, a mais iluminada das eras das luzes e que a capela Sistina deveu e deve, e muito, as suas abóbadas ao estímulo de Sisto IV e ao talento artístico de Michelangelo, que, com a sua genialidade, veio a esculpir o mais singular e ubíquo toque divino jamais realizado entre os céus e a terra , ou, como querem alguns: “ o toque de dedos entre Deus e o ser humano”.

Entretanto, não se pode negar, em contrapartida, e ignorar também que no Colégio de Cardeais, pululavam, muitas vezes, atitudes exageradamente burlescas, que faziam mais corar do que qualquer outra coisa; muito mais, até, que a própria púrpura cardinalícia, veste que, de uma certa forma, tentava impor com a sua carminada cor a seriedade religiosa, o rigor moral, o empenho de governo, púbico e privado, a severa consciência de uma altíssima dignidade e dos muitos e árduos deveres que ela comportava, símbolo do empenho e na defesa da fé “usque ad effusionem sanguinis”.

Porquanto, talvez, que, na sua sapiência, certos cardeais tenham interpretado e vaticinado, muito antes, o universo de Galileu, um universo que, como bem salientou Brecht, faria “a terra rolar alegremente em volta do Sol, e os mercadores, os comerciantes, os príncipes, os cardeais e até mesmo o papa rolariam com ela” - ou melhor dizendo: rolariam e deitariam; como deitaram e rolaram.

Rolaram porque, se tivermos como fulcros norteadores as palavras de Paolo Cortesi, vamos, não muito longe, deparar com figuras bastante exóticas e por que não dizer bastante imorais como a de Francescoi Armellini: ” homem feito, que veio do nada” e fez uma brilhante carreira e que, quando, no Sacro Colégio, “adquiriu cargos curiais”, com o dinheiro ganho “em empreitadas e especulações mais ou menos lícitas” e que com algumas mirabolantes empreitadas, conquistou a confiança e o reconhecimento dos dois papas Medici.


Armellini era visto como uma figura criativa, por manter “estreita ligação” com a “grande banca florentina”. Com a sua astúcia, Armellini conseguiu acumular uma imensa fortuna que já em 1517 lhe permitia comprar o cardinalato e depois o cargo de “camerlengo.” Deitou e rolou, enfim!

Mas será que tardaríamos em reconhecer, nos tempos hodiernos, alguns aspectos epigonais em inúmeros políticos e analistas financeiros, como os de Francescoi Armellini ? Será que estaria, hoje, Francescoi Armellini, se vivo fosse (e como era vivo) - controlando e pulverizando as suas ações junto às mais ínclitas e solertes bolsas do mundo? Será que seria o caso de se perguntar: ‘Um arrivista autêntico ou um yuppie renascentista extemporâneo?

Efetivamente, sim, se não encontrássemos no meio do caminho o sagaz cardeal Bibbiena, coordenador da eleição papal no conclave de 1513.

Astuto e incansável homem de negócios, Bibbiena foi fidelíssimo chanceler do Magnífico e habilíssimo diplomata dos Medici” -, tendo como recompensa o almejado chapéu cardinalício.

De maneira que é de supor que, ante a figura sagaz do cardeal Bibbiena, ruborizaria até seu estertor, o mais hábil e inescrupuloso diplomata-estadista de todos os tempos, o francês, Talleyrand.

Oh! mas havia cardeal no sacro colégio e cardeal apaniguado pelas musas, porque foi poeta e teórico literário. Trata-se de Pietro Bembo que formulou e expôs o princípio de imitação de “modelos clássicos”, conquistando, assim, mais que “duradouro reconhecimento”. Pietro, como um ‘digno’ cardeal, fez das mulheres o seu genuflexório, por quem se prostrou e se afeiçoou ininterruptas vezes; semeando, desse plantio sazonal, três maravilhosos filhos, suficientemente bem adubados com os sêmens do pecaminoso amor carnal.

Quanto aos modelos clássicos, sabe-se que o refinado poeta português, Sá de Miranda, agradeceu-lhe em prédicas a iniciação poética. Mas perguntamos: não seria coisa notoriamente pouca para um cardeal da Igreja?

Tome-se, então, a inusitada e paradoxal figura de Jacopo Sadoleto, este, sim: “ homem de Igreja e humanista moderado”; foi supino “estilista latino”, o que aliás demonstra que não só de farra e empreitadas vivia o sacro colégio; tendo nascido no seio da burguesia burocrática de Ferrara, Jacopo Sadoleto procurou construir uma carreira em Roma, tornando-se secretário de Leão X e Clemente VII” e só e paremos por aqui. Mas nos perguntamos ainda: por que não falar mais de Jacopo Sadoleto?

Será que encontraríamos, não obstante, certos deslizes imanentes aos homens de bem, pedras no meio de seu caminho, que poderiam lhe quebrar as vidraças da boa reputação?


Por isso o obscuro silêncio. O silêncio muitas vezes é mais eloquente que o próprio discurso. Fiquemos então com a sua boa índole. Seria a rendição Jacopo Sadoleto ? Ou a rendição aos números?

Porque, em se tratando de números, e, de acordo com uma teoria, o número máximo de cardeais era 24, mas, em fins do século XV , esse limite passou a ser ignorado.

Sisto IV que o diga: porque Sisto IV não foi menos pródigo ao criar 34 cardeais; nem Alexandre VI e Leão X que, numa emulação, não menos espetacular, distribuíram mais novos barretes cardinalícios, benesses essas exauridas num único e exíguo ano: 1517. No caso de Leão X, mais movido pelo temor de “uma conspiração”, do que das asas de seu emoliente coração de cardeal bondoso; de maneira que Leão X nomeou nada menos do que 33 novos cardeais, até que em 1586, o limite máximo foi fixado em 70 e pronto.


O autor italiano de História da Itália, Francesco Guiciardini, certa feita, quis definir o sacro colégio assim: “lugar, onde se incluíam homens cheios de ambição e de incrível cupidez, e quase todos atreitos a delicadíssimos, para não dizer, desonestíssimos prazeres.” Uma prova? Atentemos então para a figura de Benedetto Accolti, homem dado a ser “tratante, cruel e corrupto” que, apesar de sua cultura humanista, parecia empenhar toda a sua energia a desmentir a definição que dele fazia o já citado poeta italiano, Lodovico Ariosto, que o considerava a glória e esplendor do santo concistório. Ou como o caracterizava Giovio: “ homem violento e amante de dinheiro” que o impeliu a se tornar o responsável “por toda a espécie de delitos e de violências, especialmente durante o seu tirânico governo da legação de Marca, por ele adquirida , em 1532, por 19 000 ducados, período em que foi confrontado com acusações de homicídio, estupro, abusos, intrigas e roubos de toda a espécie.” O que mais dizer?


Porque com todo esse aparato de escroqueria, não há por que não compreender as contundentes palavras de Guicciardini, que nos levam a pensar que no colégio de cardeais se consubstanciava mais, na verdade, um Poder Legislativo mitigado por aspirações a Executivo das mais esconsas, do que um impoluto colégio, onde deveriam ser bem trancafiadas todas as preces de um mundo mais cristianizado. Porém os baixos interesses se perderam nos torvelinhos da concupiscência e das ilídimas negociatas.

O que nos leva a pensar como Maquiavel e não sermos indulgentes com a Igreja romana: “Se, nos inícios da república cristã, a religião tivesse permanecido fiel aos princípios de seu fundador, os Estados e as repúblicas da cristandade seriam mais unidos e bem mais felizes. E não há melhor indício de seu declínio do que o fato de que os povos mais próximos da Igreja de Roma, líder da nossa religião, é que são os menos religiosos.


A ponto de que, se confrontarmos os princípios que presidiram a sua criação e o uso ( oh, quão diferente) que é feito deles hoje, julgaremos próxima, sem dúvida alguma, a hora da sua ruína ou da calamidade”

Por isso, jamais deveremos esquecer que algo assim já se disse em algum remoto rincão: “um cortesão não há como ser moralista.”

Houve quem disse também, talvez, Lamartine : “quanto mais observo os representantes do povo , e aí vai a Igreja com todo o seu aparato, tanto mais admiro os cães.” E é certo que houve aqueles que nada disseram e calaram-se e quando disseram, distorceram ou mesmo acreditaram em frases inócuas como as proferidas pelo ex-presidente norte-americano, Ronald Reagan, que em sua charlatanice e arremedo de bom governante assim insinuou: “sim, eu sou um ator, e minha intenção é permanecer assim.”

Houve, ainda, os que preferiram adágios como esse de Frederico II, O GRANDE, REI DA PRÚSSIA , que dessa forma sublinhou: “ a trapaça, a má fé e a duplicidade são, infelizmente, o caráter predominante da maioria dos homens que governam as nações”.

Ou os que cometeram o deslize de inverter uma sofisticada máxima de Catarina II, A GRANDE, IMPERATRIZ DA RÚSSIA, 1729-1796, e que quase acertaram com essa sutil ironia “o pão que as alimenta, a religião que as consola: tais são as duas únicas (in) acessíveis às massas”.

Com tudo isso exposto, devemos admitir, no perorar deste opúsculo texto, que chegamos quase a naufragar no mais fundo dos poços ao intentar falar sobre a pudicícia cardinalícia. Talvez porque tenhamos olvidado algumas ilustres e retilíneas figuras, que por lá passaram naquele santo colégio.


Mas será que seria de mau tom perguntar mais uma vez; será que, na verdade, seria frutífero procurar tais figuras por lá?

Será que não ficaríamos, ‘nós’ - polutos e indignados herdeiros de uma cristandade, ainda mais rúbidos do que a própria púrpura cardinalícia que um certo dia nas palavras de Cristo assim asseverou:

“Tu és Pedro e sobre esta pedra eu fundei a minha Igreja.
E as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Hei de dar-te a chave do reino dos céus.
O que ligares na terra, será ligado nos céus.
O que desligares na terra, será também desligado nos céus.”



“Ora essa!
Vede como vos exaltais!
É meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a
amizade.
No entretanto, não me quereis ouvir.
Como são os cristãos, ó pai Abraão!
A dureza mui própria os leva sempre
A suspeitar do pensamento alheio...” [Shylock]





“Há poucos cristãos verdadeiros,
E digo-o mesmo no que concerne à fé.
Há muitos homens que crêem mas por superstição:
Há outros que não crêem mas por libertinagem.
Poucos se situam entre uns e outros.” [Pascal]

“Bastantes vezes a aparência externa carece de valor.
Sempre enganado tem sido o mundo pelos ornamentos.” [Bassânio]

“ Agora acredito, bom Sancho, que aquele castelo ou taberna está decerto
Encantado, porque aqueles que de forma tão atroz te usaram como
Passatempo que outra coisa poderão
Ser do que fantasmas e gente do
Outro mundo?” [ Cervantes]
“Deus é paz, amor, alegria e bondade.”
Que Deus me abençoe, nos abençoe e amém!

Wilson Luques Costa

enviada por wilson luques costa



10/01/2006 16:03
Physis e Nómos na Pós-modernidade – Uma tentativa de apreender, aprendendo




Diógenes - ‘Ó, Cário, com que fundamento
tu estás cheio de orgulho e julgas que deves ser
honrado mais do que todos os outros?’

É preciso uma heteroíosis no mundo? Devemos respeitar o nómos? Como integrar nómos e physis? Na chamada pós-modernidade, parecem ser esdrúxulos esses questionamentos ou esses nexos. Mas já encontramos em Diógenes Laércio: ‘a lei é a rainha de todas as coisas humanas e divinas.’ Será que quando se compreende uma lei particular, acaba por se compreender o nómos estóico? Será que o homem pós-moderno vigia as coisas belas e torpes sem se desviar em sua semântica do pensamento estóico? Será que o homem pós-moderno consegue equacionar a natureza naquilo que ela tem de justiça?


Para o homem pós-moderno, que não tem em conta nem mesmo o conceito pós-moderno, e muito menos os conceitos de coisas belas e torpes, integrar physis e nómos pode parecer algo surreal; mas para os estóicos tudo estava em perfeita harmonia.

No livro ‘O Ofício do Filósofo Estóico’ podemos constatar: ‘A Stoa quis fazer sua Cosmópolis em acordo com a natureza, quis que ela tivesse um caráter teórico e não prático, e teve motivos para tanto.’ Evidentemente, e não sem razão, que se pode estar lendo esse ensinamento fora de seu contexto - como se fosse um novo tipo de fragmentação -, não uma fragmentação pré-socrática, mas sim, antes, uma fragmentação pós-moderna, uma metalinguagem da destruição da míxis estóica.


O homem pós-moderno - o homem fragmentado - tendo também o seu chrónos - o seu tempo medido. A ciência alertando. A ciência dizendo todos os dias ao homem da sua finitude e ele acreditando num tal tipo de epistéme . O chrónos do homem pós-moderno se dando talvez a partir do seu primeiro grito primal e se expandindo até o seu estertor -, num silêncio muitas vezes que chega a comover. Por isso essa hormé pleonazouza - essa
tendência desmesurada de consumir o áristos? E qual o áristos do homem pós-moderno?

Para muitos a resposta seria o consumo do próprio consumo - o consumo da própria physis, a dynamis do homem pós-moderno situada nas suas máquinas voadoras e nos seus ícaros metálicos ou nas gôndolas dos super e hipermercados neomodernos. O homem pós-moderno desse modo desprendido da physis estóica, perdendo o seu pneûma originário.

Muitas vezes já se perguntou: Se a physis é o todo, quem teve então a primeira petulância de bradar uma héxis em dissonância ? Por que o narciso se apoderou dos homens? Seria o desejo da permanência? Mas tudo já não é permanente? Por que essa isonomía só para os homens e não para a totalidade da physis? O que faz do homem um ser parà physin?

Difícil estabelecer, após isso posto, um ponto originário, um primeiro lógos adâmico da physis; o homem se apoderando de sua noûs; o homem gerando o próprio paradoxo da physis. Porque sendo o homem um ser dotado de inteligência, pressupõe-se assim uma quebra de princípios da physis; uma quebra da isomoiría; o homem sendo afetado por uma kairós dadivosa, que displicentemente não reconheceu os desvios que o homem poderia tomar. Desvio no sentido moral. O homem alheado da physis, mas não o seu contrário.

Em Marco Aurélio, um estóico luminar, perpassa um tipo de comportamento moral: ‘De Vero, meu avô, a boa moral e a calma.’ Mas poderiam perguntar: se tudo é physis, calma para quê? Tudo isso para quem não tem uma boa katálepsis. Mas se deve perguntar para se compreender. Marco Aurélio era talvez um daqueles epígonos sobressalentes da physis estóica; possuía o poder do lógos originário; sabia agir; tinha a sua katà physin
herdada e a sua katálepsis - ou melhor dizendo, não cometendo a hybris; não sendo um phaulôs.

No livro X das Vidas e doutrinas de Diógenes Laércio temos: ‘Os deuses têm uma forma humana.’ A pensar nos humanos, e a pensar nos deuses que os humanos têm acreditado, poderíamos acreditar que sim. O caráter teórico da Stoa justifica-se em tese.

Quanto à práxis, como justificar-se diante de um kenón – pergunta um phaulôs. Por quê, se tudo é soma e por conseguinte, se não se vê além de seus próprios limites? Não seria o todo, um
adiáphoros diante dos homens? Por que o homem vendo-se como um áristos e concebendo a sua própria autarchéia? Porque para um adiáphoros o homem não tem uma axía superior. Sendo portanto o todo com a sua areté, porque nada é desconexo, nada é caótico.

Não há dualidade na physis; porque no cosmos não existe descontinuidade. Para os estóicos não há caos. Corpo cósmico na sua unidade com alma cósmica. Sendo o corpo tudo que age
e padece. O homem a partir daí entrando numa suposta contradição. O homem vendo um desregulamento da physis que não haveria, a não ser em seu próprio modo de agir.




Mesmo desprendido o homem continua preso. Porque se fosse de outra maneira, contrariaria a lei da unicidade. Agindo desse modo, e partindo de uma não-contradição das leis da physis, tudo seria permitido, ou melhor, nada faria sentido. Fazendo sentido sim o que o homem julga e estabelece para si e para os outros, mas para o todo não.

Com efeito, abrem-se, desse modo, precedentes perigosos para os homens dentro de sua historicidade. É o que os homens têm feito, aliás. Caindo sempre e invariavelmente numa lei menor de juízo. Uma lei de jurisconsultos, ou uma lei de magistrados, o que, efetivamente, não pertenceria a uma tal filosofia. Haja vista a possibilidade do suicídio na visão dos estóicos. Para a physis, o suicídio seria algo adiáphoros?

Vejam Zenão de Cício, com o seu próprio estrangulamento. Como tratar isso no campo do nómos estóico?

Há uma diferença de grandeza, quando se tenta comparar aquilo que se assemelha, mas não é. Que o homem tenha a sua lei; o seu comportamento; o seu julgamento; a sua justiça - é indiferente. E o perigo é o precedente. Ninguém quer assistir a genocídios no Iraque, nem no Pará, mas isso feriria o nómos da physis? Pois o perigo está que há muitos indiferentes no mundo e esses indiferentes, nem sempre reconhecem certos procedimentos que julgamos éticos. Porque se o homem é o todo, a morte é nada. Uma atitude de um polítes phaulôs evidentemente; porque esse phaulôs poderia pensar: onde tudo é permitido, nada é permitido salvar, a menos que se desconsiderem falhas de sistemas, e se pincem aqui e acolá procedimentos que possam valer para o nosso dia-a-dia.


Mas quem disse mesmo que há um sistema estóico? É preferível ficar com o esforço de Marco Aurélio quando medita no livro I :’De minha mãe, a piedade e a beneficência e a abstinência não só das más ações mas também dos maus pensamentos; além disso , a simplicidade no modo de viver e o desprezo à ostentação.’

Como afirma Rachel Gazolla em seu livro: ‘Sabemos que um filósofo não transforma sua época pelos ensinamentos, porém, eventualmente, muda o discípulo que o ouve ou o rei que o procura e cria ramificações infindáveis desses ensinamentos.’

Sendo assim e ressaltando-se algumas incogruências, mais por falha de quem tem uma dificuldade de apreender a phantasía kataleptiké, o pensamento do estoicismo poderia levar muito bem o homem a sua phrónesis e com isso ser um homem mais racional, mais ético, mais humano, mais integrado à natureza. Mesmo que isso venha a custar certas fendas e incompreensões, por parte daqueles que se propõem a elaborar certas hermenêuticas e encontrar certas fissuras e contradições - que são na verdade o “leitmotiv” dos homens.

Um tipo de dialética do próprio homem, esse homem fragmentado que busca a sua totalidade, ao menos, com os próprios homens com quem habita, que, de uma forma ou de outra, possuem o mesmo éthos, e que buscam como escopo a sua eudaimonía, mesmo sendo um fragmento inexorável de uma physis, que não possibilita em nenhum instante a sua desintegração. Porque se o homem nasceu abraçado à natureza é porque com ela perecerá, não obstante as boas ou más condutas de quem caminha por essas ‘ásperas pedras mortas, esses ‘restos de estrelas’ – nas palavras de um tal poeta .’


Por isso que ‘nada é pior que escutar a fala da sociedade, - considerando justo o que a maioria aprova, e imitar o modelo do comportamento da massa, vivendo não segundo a razão, mas pelo conformismo. É este o motivo das aglomerações de pessoas que se esmagam uns aos outros’; embora ainda seja sabido que nem sempre os homens respeitem as leis: leis da natureza; muito menos; leis feitas pelos próprios homens. Mas se ‘o que eu digo é verdadeiro porque o provo; mas o que prova que a minha prova é verdadeira?’ Porque como pensa Lyotard ‘todo consenso não é indicativo de verdade; mas supõe-se que a verdade de um enunciado não pode deixar de suscitar consenso’; e sabe-se muito bem que o estoicismo nunca foi consenso, muito menos numa pós-modernidade que há muito se despedaça e que sequer consegue restabelecer os seus estilhaços e que nem intenta possuir a noção de unicidade ou totalidade, com cada cidadão seu comportando-se como se fosse uma mônada, mas muito aquém do que Leibniz poderia supor ou sugerir.

Resta saber, como ressalta Gazolla em seus escritos, ’ como a utopia zenoniana pode ser uma paidéia e, exatamente por ser utópica, como pode transformar o homem historicamente enraizado na diversidade e inimizade?’

A questão primeira é também saber se seria possível opor pirronistas e céticos pós-modernos a uma tradição que ainda não fechou os seus pórticos, quando se fala dos homens e natureza. Porque só se apreende, aprendendo e vice-versa. Mas quem hoje, na verdade, estaria disposto a uma tal heresia: opor o todo aos estilhaços da vida?





BIBLIOGRAFIA
GAZOLLA, Rachel. O Ofício do Filósofo Estóico.
O duplo registro do discurso da Stoa. Leituras Filosóficas. EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 1999

________________. Para não ler Ingenuamente uma Tragédia Grega. Leituras Filosóficas. EDIÇOES LOYOLA. 2001

CECHELERO, Vicente. A LÍNGUA DAS SOMBRAS ou O livro dos desertos.EDITORA GIORDANO, São Paulo, Brasil, 1997

O EPICURISMO e sua tradição antiga/ Jean-François Duvernoy; tradução Lucy Magalhães. Rio de Janeiro. Brasil. Jorge Zahar. 1993

MARCO AURÉLIO. Meditações. Iluminuras. São Paulo. 1995

RENAUT, Alain. O Indivíduo; reflexão acerca da filosofia do sujeito; tradução Elena Gaidano. Rio de Janeiro, Brasil. 1998

BOERI, Marcelo. Sobre el Suicídio em la Filosofia Estóica. In Ética Ontem e Hoje. Revista Hypnos. Número 8. Edições Loyola. Educ e Triom. 2002

LUCIANO, de Samósata. Séc.II. Diálogos dos mortos.Versão bilíngüe grego / português. Tradução, introdução e notas de Henrique G. Murachco. Edusp. Palas Athena.

SÊNECA, ca. 4 AC.- 65. A vida feliz / Sêneca; tradução André Bartholomeu. Pontes. Campinas. São Paulo. Brasil.1991

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna / Jean-François Lyotard; tradução de Ricardo Corrêa Barbosa. .ed. Rio de Janeiro. José Olimpio.2000


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Programa de Pós-Graduação em Filosofia – Mestrado
Profa. Dra. Rachel Gazolla
Mestrando: Wilson Luques Costa
São Paulo/2002/2003


enviada por wilson luques costa



10/01/2006 15:43

Cassirer – o poeta de Davos.




Como diz Cassirer na introdução do seu belíssimo ensaio: O mundo humano do espaço e do tempo, “o espaço e o tempo são a estrutura em que toda a realidade está contida.”

Com efeito, onde situar então o poeta , esse ser com infinitos apodos? É-se poeta quando querem achincalhar; é-se poeta quando querem destituir toda e qualquer argumentação filosófica; é-se poeta quando querem, de forma sub-reptícia, alijar de toda e qualquer escola ou confraria, na qual são estimulados e desenvolvidos - até quase o seu esgotamento, todos os argumentos físicos e metafísicos.

É de se supor que ao poeta cabe então o espanto ao se deparar com conceitos estranhos à sua arte.

O poeta, de repente, entra numa aporia. O poeta mal sabe, mas já está fazendo filosofia, na pura acepção da palavra. Ele que é destituído de toda racionalidade. Passa então a ser um puro fato, uma facticidade. O poeta e a sua derrelição.
Nesse sentido, onde a possibilidade do real do poeta, se já não tem nem mesmo no mundo fenomenológico condições de conceber o seu espaço e tempo?

Será por que o poeta com a sua largueza excede as medidas e as limitações espaciais e temporais? Por isso considerado por quase todos como um nefelibata que nada resolve?

Será por que, como Cassirrer situa no texto sobre as crianças, tem de aprender ainda “muitos talentos.” De modo que o poeta seria, por conseguinte, uma mera criança no universo filosófico, caber-lhe-iam apenas os jogos de devaneio.

Devaneio não no sentido de delírio, mas sim no seu sentido mais literal, pensar nas coisas vãs. Ao poeta não cabe pensar no universal. Seria pura tautologia; um jogo de metáforas, catacreses, metonímias, oximoros.

Como um Proteu, lhe cabe a transfiguração, a prestidigitação. Por isso o poeta, muitas vezes, comparado ao gato, melindroso felino. Mas o gato não é constituído de palavras. Ao gato não cabe a nomeação. Gato não aspira a ser um demiurgo e muito menos os que levam a chalaça de poeta. Não é o poeta que se intitula poeta; antes muito pelo contrário.

Raras são as vezes em que isso ocorre, e quando ocorre, creiam ou creia, não passa de lídimo cabotinismo, lídimo narcisismo mal resolvido. Onde então a linha tênue entre poeta e filósofo; filósofo e poeta? Não seria também o filósofo um meio fio? Para os poetas não passa de um cientista; para os cientistas não passa de um poeta fracassado.

E lá vai o filósofo trabalhar as suas antinomias.

Platão, na certa, o salvou: “uma lei estabelece que no primeiro nascimento, a alma não entra no corpo de um animal; aquela que mais contemplou gerará um filósofo.” Muitos deturpam e desconsideram o filósofo, como deturpam e desconsideram os poetas.

Platão, em Fedro, dizia dos poetas, referindo-se aos graus ou cânones: “a do sexto terá a existência de um poeta ou qualquer outro produtor de imitações.”- e Platão vai além: “nenhum poeta ainda cantou nem cantará a região que se situa acima dos céus.”

Resta ao poeta então o chão, mas onde pousar as suas asas aladas, as suas asas de gigante nos versos de Baudelaire. Um albatroz é desengonçado, chega mesmo a ser ridículo.


Mas se pergunta: quem cantará? Quem poderá melhor falar dos universais do que um ser universal? Poderiam responder que Nietzsche, pois estudado na cátedra como filósofo respeitado por muitos; mas Nietzsche já dava a sua réplica em Ecce Homo: “Deus”, “imortalidade da alma”, ‘redenção”, “além”, todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei o meu tempo, nem mesmo em criança.”

Será que Nietzsche comparava os filósofos às crianças? Se assim for, o poeta não estaria isolado. E lá vem Nietzsche de novo: “nem mesmo em criança; talvez nunca fosse bastante ingênuo para fazê-lo.” Assim o poeta e o filósofo numa aporia absoluta se confundem.

Em Davos, Suíça, em 1929, por ocasião dos encontros universitários ocorridos naquele país, o filósofo judeu, Ernst Cassirer, foi vítima das lancinantes palavras de Heidegger
que defendia a “necessidade de uma destruição daquilo que foi até agora o fundamento da metafísica ocidental ( o Espírito, o Logos, a Razão)”. Naquela ciclópica luta, quem o filósofo; quem o poeta? Quem o dono da verdade? Seria essa violência já um estofo de um espírito maior? Mesmo os mais sagazes filósofos, atribuem-se de ferramentas poéticas.

A metáfora, não inconsequentemente, torna-se um baldrame bem seguro nas mãos dos filósofos. Às vezes para se falar de Estado, fala-se de Espírito. Mas como, se o que não se pode dizer deve-se calar? Mas e as metáforas dos poetas? Por que não falar como se deve? Por que o discurso que se faz por meandros? Por que o discurso que serpenteia nas encostas da dissimulação, fazendo, assim, tropeçar nos tropos? Para instaurar.... um sistema...ou qualquer coisa que o valha.

Já o poeta fala por metáforas, porque pretende recriar um mundo que não lhe cabe. Nesse sentido o poeta torna-se o antípoda do filósofo, pois já carrega o espírito destruído.

Caímos novamente na filosofia: Qual espírito?

O poeta não quer fazer um mundo. O poeta não cabe, mas também não quer caber. O poeta é pura contingência. Ele está aí no mundo. Dasein? Também não! Ele habita um mundo inóspito.

Há muitos que opõem o poeta à ciência. Chega a ser excludente tal relação. O poeta não é inimigo da ciência. O poeta se pergunta, tal como o filósofo. A diferença é que o poeta responde, ou tenta responder, mesmo que errado. Dizer que o poeta não pergunta sobre os universais, seria como dizer uma falácia.
Dizer também que a poesia nada resolve, como se a ciência viesse dar conta de tudo, é outro erro crasso.

Falar em juízos sintéticos a priori como se fossem a panacéia é uma quimera. Parece que todos correm tresloucadamente no intuito de descobrir o primeiro juízo sintético a priori.
Sabe-se que na literatura, James Joyce, autor irlandês, que escreveu Ulisses, dizia que deixaria os pósteros enlouquecidos e parece que Kant, antes, o mesmo fez também

Kant, com a sua benevolência e com a sua revolução copernicana, quis dar uma sobrevida à metafísica, afirmando, na Crítica da Razão Pura, que a matemática ou a física é a que lhe daria uma última dose de alento, assim como se aviam remédios de tarja preta a doentes terminais.

E aí todos a correr em busca dos cálculos exponenciais e excepcionais. Muito se afirma aqui e acolá da universalidade da matemática e da sua não contradição, dos axiomas perfeitos. Como se se pudesse falar daquilo de que não se conhece. Desolado e deprimido, o poeta põe a cabeça entre os joelhos, ergue as mãos para os céus e invoca Deus. E por qual Deus? Nada de filosofia ao poeta. Esse Deus, que ele próprio concebeu para si, lhe basta, sem maiores elucubrações. Deixa de ser filósofo. Aliás, nunca o fora.

Kant na sua sobeja experiência não se furtava entretanto de dar à arte um último suspiro e, de uma forma ou de outra, lhe dava também uma certa dignidade. Kant além de gênio era astuto, ludibriou os exatos, para que o zéfiro soprasse livremente.

Kant talvez tenha percebido que o poeta fora o primeiro a priori, algo que não se dá como experiência; mas o poeta é um axioma contraditório; o poeta chega a ser mesmo uma inconsistência - seria como uma tal multiplicação: [1 X 0 = 0] que nada resolve - seria equiparado àquele matemático, quando afirma que [ 0 X 1 =0 ]; outra inconsistência.

Ambos, nesse sentido, dois poetas. O poeta e o matemático: o poeta das metáforas; o matemático; poeta dos números anódinos que só dão conta do real, dessas coisas comezinhas: duas pêras mais duas pêras são quatro pêras, sem atentar para o fato de um mundo de não-pêras.

Por isso tautologias em cima de tautologias. Por isso esses banquetes do saber. Por isso essas ágapes filosóficas, seja em Davos, onde também esteve Hans Castorp.





Ao menos, Hans Castorp tentava se curar de sua maladia mais real, mas curvou-se à doença filosófica, relegando seus pulmões a um segundo plano. Seus brônquios aspiraram um oxigênio puro, é verdade. Aspirou também um pouco do sutil filosofar de Naphta “que não tinha fé na ciência – visto o homem ter plena liberdade de crer nela....a própria palavra “ciência” era a expressão do mais estúpido realismo que não se envergonhava de aceitar e gastar como moeda sonante os reflexos mais que duvidosos que os objetos sofriam do intelecto humano, e de preparar com eles a mais lamentável e a mais insossa doutrina que já se impingiu à humanidade.”

Com efeito, qualquer pessoa que soubesse pensar logicamente seria levada a experiências curiosas e a resultados divertidos com esse dogma do espaço infinitos reais; obteria precisamente o resultado: “nada.”

Será que seriam todos: poetas, filósofos e quejandos dotados de certas doenças. E se descobríssemos o primeiro motor aristotélico?




Para o poeta verdadeiro isso nada significaria - porque “o maior perigo de quem escreve é fazer da pena ou pensamento um ídolo. Ou um título. Quando nos devíamos até envergonhar de ser homens de letras, tal o peso dos venenos morais e outros que elas carregam consigo por nossa culpa.”

Mas há poetas que filosofam? Talvez: “uma vez senhor Pi saiu por uma tangente de sua sólida casa redonda e penetrou no futuro antes que os demais. Pálido retornou e exclamou: “Estive no futuro.” E como é?, lhe perguntaram. “Não sei, o futuro é escuro. Não se vê nada porque o sol não sai no futuro, os relógios não marcam todavia a hora e, mesmo se a marcassem, nada se veria porque tudo é terrível como a noite. Não vi nada no futuro e me assustei.” Desde então, o senhor Pi limitou as suas saídas ao estritamente indispensável, sempre dentro de seu raio, e nunca mais saiu de casa sem antes consultar seu horóscopo.”

Muito se fala de : “esse é um esquema.” “Deus está morto.” “As estrelas no céu.” “Conhecimento puro conduz a juízos universais e necessários.” “7 + 5 = 12.” “Duas linhas paralelas jamais se encontram no espaço.” “Absoluto de: Descartes; Kant; Hegel; Bergson.”



E aí vem H.L Mencken, um irônico safardana apunhalando: ”um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que você entende por “vezes”, o que significa “dois”, e o que quer dizer “são” e por que isto dá quatro. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes.” Mas Schopenhauer já avisava:” o verdadeiro filósofo deverá suportar as intrigas tecidas pela inveja.” Motivo para se ficar com os filósofos.

Agora poesia não tem só o belo. O poeta não é uma ânfora de cristal. Não é algo quebrantável de porcelana. Um poeta é um ser que pensa na sua finitude; não é também um mimético. Larguemos mãos de nos apoiar em colunas porque foram colunas. Todos os ensaios falam de um poeta, aquilo que ele efetivamente não é e pronto. Quem quiser acreditar que acredite. O monturo estaria cheio a esta hora de ensaios maravilhosos. Estiagem em plena primavera. Um dos problemas cruciais do poeta é a morte.
Bem entendido, a sua morte. O poeta pensa para dentro. Poeta não pensa para fora. É apenas um simulacro. Não obstante Galileu, o poeta não deixou de ser o centro de seu universo. A revolução copernicana não se deu com o poeta. Para o poeta o futuro dura muito tempo; ou “o futuro cansa e põe de mau humor.
Dá gana de fumar. Como o cigarro, o futuro também é anacrônico e prejudicial à saúde.”

Dessa maneira, poderíamos falar como Cassirer “a poesia é uma forma pela qual um homem pode passar veredicto sobre si mesmo e sua vida”, pode até se dizer que dá para falar de universalidade quando Cassirer afirma: “mas a poesia não é a única forma, e talvez não seja a mais característica, de memória simbólica” e vai mais longe: “Agostinho não relata os eventos de sua própria vida, que para ele mal valiam a pena ser lembrados ou registrados. O drama contado por Agostinho é o drama religioso da humanidade.

Sua própria conversão não é mais que a repetição e o reflexo do processo religioso universal – da queda e da redenção do homem.”

Pode-se ainda dizer que quando ri do poeta, a humanidade está rindo da sua própria queda. O que nos leva a compreender por que “o público de Davos – entre o qual se encontravam Jean Cavaillès, Emmanuel Lévinas, Maurice de Gandillac – não deixaria de sensibilizar-se com a violência contida nos ataques de Heidegger contra o seu colega Cassirer – a quem, no momento da partida, ele recusará estender a mão.”



Quando se ataca a poesia, mesmo na figura de filósofos eminentes, já é tempo de se colocar sob alerta. O poeta jamais deixará de ser o farol do mundo. Com Cassirer, em Davos, a filosofia não seria mais a mesma. Cassirer como filósofo saiu derrotado, mas os perjuros lhe lançaram as chamas da poesia. Cassirer se tornou assim o mais recente albatroz da filosofia contemporânea. Nem sempre para se ser poeta é necessária a feitura de versos, às vezes, uma simples ofensa lhe basta. Pode-se concluir então que de Davos puderam-se instaurar um novo olhar e uma nova possibilidade da filosofia contemporânea. Dos inúmeros embates das alturas , às vezes, é mais fácil rir da seta no ar e coxear como o enfermo alado.


Albatroz

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
WILSON LUQUES COSTA
2002/SÉCULO XXI
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO






enviada por wilson luques costa



10/01/2006 15:38
Mais Cartola, menos Nietzsche, menos Prozac.

Cioran começa assim um belo ensaio: ‘para um autor,
é um verdadeiro desastre
ser compreendido.’ Eu,
à minha maneira,
penso que ser compreendido demais
é tão desastroso quanto.

Eis o caso de Nietzsche.

Poderíamos dizer que Nietzsche,
de uma certa forma, não seja o propagador do Übermensch;
mas sim do ‘ubiquomensch’. O que está em todo lugar e em lugar nenhum.

Já li tantas coisas, que confesso que, quanto mais leio, sobretudo seus hermeneutas, menos compreendo e não menos me compreendo.

Então tomemos uma de seus interpretadores: ‘... o aristocrata, ao instituir valores, parte de si mesmo, dirige o olhar primeiramente para si e, a partir dessa direção, afirma ou nega, venera ou despreza... a alteridade, designando o tipo diferente do nobre, é julgada pelo contraste consigo...’

Nunc uma pergunta inocente: ubi esses ARISTÓI fundamentaram o seu ergo sum?

Unde derivam o seu cogito ergo ego?

Ou seria simplesmente um lago ‘narcinazimetafísico’?



Isso se parece um pouco
com o eu fichteano, que todos sabem falho,
ao menos o autor dessas mal traçadas...: ‘Sum ergo sum’.

Mais uma vez os aristocratas:

‘... a maneira tipicamente plebéia de instituir valores morais se caracteriza, como se pode compreender, por procedimentos inversos àqueles empregados pela moral dos senhores...’

Mas como, se Nietzsche é o destruidor da moral?
Uma moral substituindo outra?
E sobre o eterno retorno?
aquilo que deve retornar infinitas vezes...

Se fosse Cartola ou Nelson Cavaquinho, até que bem compreenderíamos...

Seria um tipo de imperativo categórico Kantiano?

E os hermeneutas reatacam: ‘... para a moral dos escravos, “Bom” significa o contrário de “Bom” na moral aristocrática...’

Longe está a fundamentação lógica de tudo isso.

E os aristocratas, com a sua força, tentando impor conceitos inconsistentes, inconsistência pela inconsistência, um tipo de retórica falaciosa.

É possível que venham me chamar de ressentido, fraco, ave de rapina e/ou cordeiro.


Os ARISTÓI talvez tenham razão, porque só respondo quando me atacam
e/ou
atacam os indefesos,
ou os que não querem se defender.

Mas não me parecem apócrifas
essas palavras de Nietzsche:

‘ eu ataco somente as coisas vitoriosas... eu ataco somente coisas das quais se exclui qualquer antipatia pessoal...pelo contrário, atacar é, para mim, um sinal de benevolência, sendo às vezes até de reconhecimento... eu sou o anti-asno por excelência e, portanto, um monstro de importância histórica: em grego, e não somente em grego, sou o Anticristão...’

Ecce Homo
(ato falho?)...

Não devemos esquecer que ANTI
na etimologia grega ‘pode’
também significar: ‘no lugar de...”

Mas tenho certeza que Nietzsche
não se reviraria no túmulo,
só pelo fato de eu ter supostamente
lhe compreendido.

Eu, um plebeu ressentido,que ataca os tolos de rebanho acadêmico e metidos a EUGENES
Sou Agnus Dei e do povo.
VIVA A DEMOCRACIA E AMÉM !





São Paulo, 21/12/2004
WILSON LUQUES COSTA
POETA E CONTISTA.
ESTUDA FILOSOFIA E GREGO ÁTICO.
É AUTOR DO CONCEITO FILOSÓFICO DENOMINADO DE
O PARADOXO DO ZERO
Obs: O computador é tão analfabeto em grego quanto o seu dono. Revisar (acentuação grega, éta e sîgma final)
Agora, se não houver revisor de grego, estou procurando emprego...rs
FELIZ NATAL A TODOS E PRÓSPERO ANO-NOVO.

enviada por wilson luques costa



10/01/2006 12:20
A ERA DO COELHO

Penso que a idéia de progresso venha se confundir com

a idéia de velocidade. Não tento muita certeza disso,

não tenho a estupenda figura do professor de latim -

Basseto -, mas parece-me que disse certa vez em aula

no mosteiro que progresso tem a ver em 'levar adiante'

um passo à fente. Isso seria muito interessante para

a cultura ocidental se não tivéssemos um Abgrund nos

esperando na chegada. Então façamos algumas comparações.

Uma BMW progrediu mais que um DKW; a mulher magra

contemporânea é tida como mais bela e mais esbelta

por quê? Ambos não estariam relacionados com a idéia

de progresso? Velocidade? Então comparemos o futebol

de Pelé com o de hoje: hoje há maior velocidade.

As imagens são velozes. Os veículos são velozes.

Os amores são fátuos e velozes. Os poetas são

velozes com seus versos -- eximindo todo o seu

domínio técnico. Elaborar um soneto em dez minutos,

ou menos. O atendimento deve ser rápido. Não

suportamos cinco minutos de espera. Morremos

rapidamente e somos esquecidos numa fração de

segundos também. Tudo é muito rápido. Daqui a

dois minutos ou melhor um segundo este texto já

não será mais possível. Somos o homo rapidus.

Ficamos no amor. Ficamos à espera de uma morte rápida.

Tão rápida como é essa vida. O momento abissal nos espera

lentamente. Corremos desesperadamente à procura do nada.

Ficamos... simplesmente ficamos...
enviada por wilson luques costa



10/01/2006 11:53


Alguns problemas colocados.


O princípio da contradição ou não-contradição é um princípio
‘sine qua non’ dos juízos sintéticos a priori. Kant, na Crítica da Razão Pura, define os juízos sintéticos a priori como: ‘não os que ocorrem de modo independente desta ou daquela experiência, mas absolutamente independente de toda a experiência.’ Mas não pretendo, em absoluto, falar de experiência. Kant vai além: ‘em primeiro lugar, portanto, se se encontra uma proposição pensada ao mesmo tempo com sua necessidade, então ela é um juízo a priori.’ Para os mais afoitos ou leigos, essa frase poderia passar despercebida. Primeiro, porque os filósofos têm o péssimo vício de inventar e reinventar termos e conceitos, colaborando de maneira exemplar para o surgimento das valências polissêmicas. É o caso da necessidade. Segundo, porque a filosofia se faz e se comporta, não raras as vezes, por uma tal obscuridade, por algo assim eivado de uma certa nebulosidade, pertencente só mesmo aos semideuses, que chegamos a ficar atônitos diante de certas idiossincrasias.Mas ó pequeno homem. “Mas ó micros antropos”. Temamos a tanatos e ao destino. Bem, necessidade é não-contradição. E o que vem a ser contradição? No livro “A filosofia a partir de seus problemas” temos: Uma contradição se produz quando afirmo e nego a mesma coisa, ou seja, digo:“A é não A” (ou, por exemplo: “Chove e não chove”). O princípio da contradição é um princípio da lógica clássica que diz: nada pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob a mesma relação (ou: um juízo não pode ser verdadeiro e falso). Algo é possível quando não implica contradição. Algo é impossível quando implica contradição. Algo é necessário quando sua negação é impossível ou implica contradição. E encontramos ainda: “A lógica não faz outra coisa que explicitar a legalidade da Razão; e continua: “os princípios lógicos não são outros que os princípios da Razão pura, sendo o de contradição um dos fundamentais”. Desenvolve-se o raciocínio de tal forma, que chegamos até a acreditar que estamos diante de algo inabalável. Vejamos mais um pouco: “portanto, apoiando-me exclusivamente na razão pura posso fundar o conhecimento necessário do ponto de vista lógico-formal e, em conseqüência, produzir um certo tipo de saber a priori.” Andares e pilastras vão se construindo de tal modo, que nem aludimos a um possível desmoronamento: “se a ciência físico-matemática tem êxito, isto só pode acontecer porque, de algum modo, ela é capaz de um conhecimento necessário que não se baseia na Razão pura”. Retornemos agora à Crítica da Razão Pura, onde Kant é categórico ao afirmar: “ora, é fácil mostrar que no conhecimento humano realmente há tais juízos necessários e em sentido estrito universais por conseguinte puros a priori. Caso se queira um exemplo das ciências, basta olhar ‘todas’as proposições matemáticas; caso se queira um do uso mais comum do entendimento, poderá servir a proposição de que toda mudança tem que ter uma causa...” Para nós basta a seguinte frase: “todas as proposições matemáticas”.Sendo assim e não de outro modo, ou seja, que os juízos sintéticos a priori são juízos necessários e universais; assim, Kant afirma a validade da ciência e por conseguinte de seus dois mais ferrenhos baluartes a matemática e a física. Mas como se fosse um daqueles aviões de 11 de setembro, ou como se fosse ainda uma terceira revolução copernicana; um Copérnico mudando a rota da filosofia e da matemática; ou da filosofia e da lógica. Ou uma e outra. Ou outra, mas não uma. Ou mais: uma, outra e uma; eu arrosto todos aqueles que crêem em tal irrefutabilidade; ou dizendo melhor de outra maneira: que a matemática é necessária. A não ser que houvesse por parte daqueles que propugnam tais assertivas uma contrição imediata. Mas Kant está morto e Königsberg vive ainda tranqüila. Portanto sonegado o indulto. Se fosse de outra maneira e não essa, daria por acabado e jamais explicitaria o raciocínio que agora empreenderei: Sem lhes demonstrar tal como se deu a fórmula que se segue, afirmo que: A x B = C e sua não-contradição se e somente se C : B = A
Para isso, no entanto, valho-me de algumas exemplificações que numa quantidade razoável pretendem esgotar o assunto. Tomemos primeiro, então, o exemplo da validade ou não-contradição, ou como também passo agora a denominar como um tal tipo de paradoxo; mas fiquemos por enquanto com o que se segue: Se tenho: A x B = C e sendo verdade C : B = A . Então poderei aplicar os seguintes raciocínios:
Para: A = 1
B = 2 C = ?
Aplicando as fórmulas :
1 x 2 = 2
sendo verdade e não-contradição
2 : 2 = 1
Para:
A = 4
B = 5
C= ?
Aplicando as fórmulas:
4 x 5 = 20
sendo verdade e não contradição :
20 : 5 = 4
A fim de lhes evitar um certo cansaço e uma incomensurável lista de demonstrações com tais números,- pois creio que não necessitaríamos, pois despenderíamos o nosso sagrado tempo, bem como as páginas que aqui se apresentam, elucubrando sobre uma infinidade de cálculos, que mais se assemelhariam a um Puzzle, onde sempre encontramos uma saída, depois de extenuadas e cansativas tentativas - essa sumarização. Evidente que posso ainda se houver um outro tipo de dúvida demonstrar mais um ou dois raciocínios, mas antes peço-lhes que pratiquem até a sua exaustão e verão que ficarão extenuados e a não-contradição não se dará. Nesse sentido, perguntar-se-á: mas onde erra Kant nisso tudo? Pelo que se determina e embasado sobre esses raciocínios, Kant mantém-se mais ereto do que as duas torres gêmeas, antes mesmo daquele dia fatídico, e repousa solerte e tranqüilo sobre a sua Crítica da Razão Pura. E a matemática por seu turno dorme ainda um sono tranqüilo e abrasador, mostrando e demonstrando as suas verdades aos perscrutadores da Razão pura. Kant, efetivamente, denota uma segurança extremada ao afirmar: “a matemática dá-nos um esplêndido exemplo de quão longe conseguimos chegar no conhecimento a priori independentemente da experiência.” Mas deixa, como se fosse um ato falho, ou , como se fosse um tipo de premonição, escapar sobre a matemática: “o estímulo para ampliar seus conhecimentos é tão grande que só pode ser detido em seu progresso por uma clara contradição em seu caminho”. Antes de tudo, temos que ter bem claro que quando falamos de matemática, falamos no “conjunto das ciências que têm por objeto o número, a quantidade, a extensão e a ordem”. Poderíamos , desse modo, considerar o zero, como um representante de uma dessas quatro categorias? Se, ao menos, uma dessas categorias satisfaz as mínimas condições para se operar uma construção matemática, estamos, então, em condições, sem correr o risco da precipitação, de afirmar que há contradição nas chamadas operações matemáticas e por conseguinte nos juízos sintéticos a priori. Mas não nos precipitemos! Como diz Kant: “a leve pomba, enquanto no livre vôo fende o ar do qual sente a resistência, poderia imaginar-se que seria ainda muito melhor sucedida no espaço sem ar.” E Kant é benévolo, fornecendo-nos esse colchão macio ou esse céu de brigadeiro da Crítica da Razão Pura. Mas isso não nos força a sermos indulgentes com Kant. Não se esqueçam que Kant era um homem. E por isso com suas falhas. Cournot define assim a matemática: “sob o nome coletivo Matemática, designa-se um sistema de conhecimentos científicos, estreitamente ligados uns aos outros, fundados em noções que se encontram em todos os espíritos, todavia sobre verdades rigorosas que a razão é capaz de descobrir sem o socorro da experiência, e que, não obstante, podem sempre confirmar-se pela experiência, nos limites de aproximação que a experiência comporta”. Seria o caso de se perguntar: Qual seria o resultado de duas pêras somadas a duas pêras? E como se daria isso como experiência num mundo de não-pêras? Mas retornemos a Kant outra vez: “antes de tudo precisa-se observar que proposições matemáticas em sentido próprio são ‘sempre’ juízos a priori e não empíricos porque trazem consigo necessidade.” Quando Kant faz a sua crítica ostensiva à Metafísica, não se pode negar, que a faz de modo a ter na Matemática a sua escora, o seu esteio: “que até hoje a metafísica permaneceu numa situação tão vacilante entre incertezas e contradições, deve atribuir-se apenas à causa de não se ter antes deixado vir à mente esse problema e talvez mesmo a diferença entre juízos analíticos e juízos sintéticos.’ Kant, assim, lança mão de sua admoestação à metafísica, sustendo junto à cintura um farnel dadivoso de axiomas matemáticos. Mas esqueceu-se que as guerras são constituídas de inúmeras batalhas e logo no primeiro capítulo sucumbe, como um boxer inexperiente ao levar um ‘jab’ bem colocado. Kant esqueceu-se que quando a matemática fracassa no seu objeto, ela tende a uma certa metafísica, que só pode falar das coisas universais, ou se querem de outro modo, pretender falar. A matemática, nesse sentido estrito, como metafísica. Kant bem que poderia colocar abaixo os alicerces da matemática, relegando-a a uma metafísica menor. Todavia perdeu tal oportunidade. O que agora pretendo encetar é uma discussão sobre a possibilidade do zero como número; do zero como elemento, do zero como quantidade, do zero como extensão, do zero como ordem; do zero como um arcano. Vou colocar algumas perguntas, porque não pretendo exaurir as respostas. Quero antes perguntar. Perguntar de modo a colocar uma certa contradição entre o princípio da identidade; entre a matemática e a Crítica da Razão Pura de Kant; entre Kant e a lógica clássica, enfim: aporias. Se zero não é um tipo de número natural, por que se define como natural? Se zero não é número por que se comporta em certas situações como número? E outra: que espécie é o zero? Que tipo peculiar de número que responde e não responde? Que tipo de elemento esse, que é uma pedra no meio do caminho da matemática e por conseguinte dos juízos sintéticos a priori? Por que não poderíamos falar do zero como falamos do 1, 2, 3, 5,17,10001 etc? É evidente que já aponto para um certo tipo de contradição na matemática. É evidente também que alguém não sairá incólume. A filosofia já se cansou de respostas evasivas; quando há exceções, não se pode outorgar um ‘status quo’ de irrefutabilidade. Onde então se processa a revolução copernicana? Se a matemática não dá conta de um simples ‘conceito”zero? O que se fazer com o zero? Esta é a grande pergunta posta. Quando se afirma e se tem afirmado com uma contumácia extraordinária que 1 x 0 = 0; ou quando ainda se afirma que 2 x 0 = 0; onde buscar os matemáticos e os próprios leigos as suas fundamentações? Não podemos mais responder: é porque é! Assim fez e faz a metafísica que Kant erodiu. A matemática tem de responder e responder certo dentro dos princípios da identidade e da contradição; não podemos mais falar de Kant e da matemática como falamos sobre Tales de Mileto, Nietzsche, Cioran, Schopenhauer... Kant não disse que Deus está morto. Não disse sobre a água. Não disse sobre o ápeiron. Nesse sentido todos esses metafísicos podem falar.
Mas Kant e a matemática não. Kant colocou a matemática num ‘snooker’ de bico. A matemática tem que provar. As bases dos juízos sintéticos a priori esboroariam sem a matemática. Uma contradição e tudo a perder. Kant mesmo alertou. Restam os princípios da causalidade. Mas essa é outra conversa.

DO PRINCÍPIO DA IDENTIDADE

O princípio da identidade diz por exemplo: a = a ; se concordamos com isso, poderemos então a partir do princípio da identidade fazer algumas considerações: Se digo: 1=1 tenho um princípio de identidade; se digo 2 = 2 tenho outro princípio de identidade; posso seguir indefinidamente; mais um pouco: 3 = 3 ; 4 = 4; 0 = 0; 10=10...agora se digo que todo elemento dividido pela sua própria identidade resulta 1; ou esse princípio está correto ou incorre em erro crasso. Vamos tomar alguns exemplos particulares: A/A = 1 B/B = 1 5/5 = 1 6/6 =1
121/121 =1; percebe-se que trabalhamos com números e o que denomino de não-números ou elementos para facilitar o nosso raciocínio.

Intentemos agora um outro elemento ou número: vamos denominá-lo de zero. 0/0 = 1 pelo modelo, poderíamos inferir que
0/0 = 1 mas como? A matemática até hoje não trabalhou assim?
Então cabe pensar esse paradoxo proveniente do princípio da identidade. Vamos facilitar a visualização dessa frase matemática:
0 : 0 =1.

PARADOXO DO ZERO
A x B = C
se e somente se
C : B = A
chamaremos de A o primeiro elemento da multiplicação; chamaremos de B o segundo elemento da multiplicação; chamaremos de C o produto de A x B ou terceiro elemento da multiplicação; o segundo elemento B se soma na condição de A resultando C;
Exemplo:
A = 5
B = 6
C = ?
Aplicando a fórmula:
A x B = C
5 x 6 = 30
Para a não-contradição:
C : B = A
30 : 6 = 5.
Conclui-se que não há contradição.



Vamos agora para o número , elemento ou o conceito zero:
A = 1
B = 0
C = ?
Aplicando a fórmula:
1 x 0 = 0
porque B somado na condição A resulta zero e só seria verdade se
0 : 0 = 1.
No que se comprova no princípio da identidade que
0 : 0 = 1
Logo não havendo contradição e Kant respirando aliviado.
Mas para Kant sair da UTI, seria necessária uma revolução cabal na matemática. Estamos numa aporia entre Kant e a matemática. Justamente ambos que tinham um enlace quase que perfeito.
Salvando a matemática; Kant estaria errado?
Porque se 1 x 0 = 0 e todos concordam nesse ponto, só seria verdade se
0 : 0 = 1.
Vamos chamá-lo então de primeiro paradoxo?
E quanto ao princípio da identidade?
Salvar então a matemática?
Kant e o princípio da identidade esboroando-se?
Kant e o princípio da identidade certos e a matemática desmoronando como uma das torres gêmeas?
Optemos por salvar Kant então?
Todo filósofo sensato deveria fazê-lo?
Kant agora com a lógica não mais com a matemática?


Então a matemática sucumbiu e
0 : 0 =1
sendo verdade e não contradição
1 x 0 = 0 ?
São possíveis juízos sintéticos a priori na ciência, notadamente na matemática ?
À filosofia sempre couberam certos questionamentos acerca disso, isso e aquilo. Notadamente a partir dos seus problemas. Para respondê-los...só um filósofo poderá fazê-lo?
Mas Kant, lembra Goethe no seu estertor:
“Luz, mais luz!”
É o que os filósofos sensatos deveriam trazer.
Mas Kant agoniza no alvorecer desse século obscuro.

Todos os direitos para Wilson Luques Costa
SP/04/04/2003
Registro na Biblioteca Nacional.

enviada por wilson luques costa



09/01/2006 20:14

poetastros


Eu que não sou poeta nem um bardo,

Daqui tenho que ouvir muita besteira


De dois pobres coitados — dois moscardos —

Que dizem e que falam tanta asneira...


Julgo: não são poetas! São dois fardos

Bem pedantes e belas caganeiras!


E se me tenho aqui uma bala ou um dardo

Jogo-lhes nas cabeças bem rampeiras!...


Um poeta com pinto (sob-prenome)!

Bárbara... se for a outra só na xana!


Meto se quiser a grande banana

E maculo ainda esse bendito nome!


Porque - precisa de uma grã-resposta -

Sujo o meu pinto, mas não leio essas bostas!


Agora pois, seus bobos e pelegos,

Deixem-me na pax: vou estudar o grego!



São Paulo, 09 de janeiro de 2006.
Wilson Luques Costa

enviada por wilson luques costa



07/01/2006 14:28
Faço parte daqueles que já não lêem mais os jornais e revistas. Como se diria: passo as vistas no jornal. Portanto sou um excluído do debate político-cultural. Mas mesmo me fechando numa ilha -- num insulamento sem limites -- ainda consigo receber estertores de mensagens de oitivas. Sei perfeitamente que passamos por mais uma crise sem precedentes, posto que crise em grego seja julgamento -- digamos talvez que o país defronta-se com a sua própria crise (afrontamentos partidários). Mas pergunto: quem seria o culpado? Se dependermos de alguns, teremos a insofismável certeza de um lado da moeda; se dependermos de outros, não duvidaremos dos engodos perpetrados pela mídia nociva e corrosiva. De maneira que o cidadão-leitor ficará como um nauta à deriva, sem saber exatamente em que porto fundear. Acreditar nos fenômenos das angelias misteriosas que nos chegam, ou esperar o momento oportuno pela verdade? É notório que além de um fato político, temos em mãos um problema filosófico a resolver: estudar a realidade com os seus fenômenos, ou aguardar o desvelamento do véu da verdade redimida? To be or not to be? Eis a questão: veritas, alethéia ou emunah? Emunah e alethéia: as bases para as nossas fés num mundo de pseudos enganos...
enviada por wilson luques costa